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Obama: um Nobel para a pax americana

Publicado em 13 de Outubro de 2009
Categoria: atualidades
Correio Progressista

A recente nomeação de Barack Hussein Obama, presidente dos Estados Unidos da América, para receber o prêmio Nobel da paz causa estranheza. Não que seja um prêmio que acerte sempre, mas é que, de duas, uma: ou erraram a pessoa, ou erraram o prêmio. Barack Obama não combina com prêmio pela paz.

Não que ele seja igual a seu antecessor, George W. Bush, mas ele é mais um presidente da maior potência imperialista, e, como tal, serve ao imperialismo. Não se trata de sectarismo: sim, Obama é um grande avanço em relação a seu antecessor, especialmente no plano interno dos EUA, mas é sem dúvida nenhuma um serviçal do imperialismo. Seguro-saúde barato nos EUA e multilateralidade no estrangeiro são questões importantes e que devem ser colocadas em prática, mas não são tudo. É fundamental analisar o que realmente Barack Obama veio fazer – e seu discurso de posse é revelador.11O discurso de posse de Barack Obama está disponível no blog da Casa Branca: http://www.whitehouse.gov/blog/inaugural-address/

O discurso de posse

Nesse discurso, o presidente dos Estados Unidos passa a maior parte do tempo falando dos ideais norte-americanos, do legado dos “Pais Fundadores” de seu país, da formação de seu povo e de sua cultura, e, claro, de como os EUA se tornaram a maior potência mundial. Não haveria como ser diferente num país em que tais valores são imprescindíveis na política dos discursos.

Parágrafos abordando os principais temas no discurso de posse de Barack Obama
AssuntoNº de parágrafosRepresentatividade
Valores e legado histórico2777,00%
Guerra e estrangeiro1131,00%
Economia617,00%
Seguridade25,00%
Total35100,00%

Porém, a tabela acima é reveladora. Obama usa 77% dos 35 parágrafos para falar desses ideais; 31% para falar de guerra e de assuntos externos; 17% para falar de economia (em tempos de crise); somente 5% para falar de seguro-saúde e seguridade social – o grande mote de sua campanha nas questões de política interna. Os interesses e a proeminência norte-americana no exterior se revelam quase duas vezes mais importantes que a crise econômica e seis vezes mais importantes que a seguridade social.

Revelador também é uma leitura minuciosa do discurso. A palavra “God” (Deus), por exemplo, aparece 5 vezes no texto, sendo duas na despedida. As outras três aparições são:

Quem pensa assim dificilmente mudaria muito o rumo de uma política externa pautada na “missão” que os EUA teriam de espalhar a “liberdade” pelo mundo – ainda que isso custe a própria liberdade.

Os assuntos externos são tratados como se espera do gigante do norte. Uma das frases mais preocupantes para um nobel da paz é a seguinte: “Começaremos a entregar o Iraque a seu povo de maneira responsável e a forjar uma paz duramente conquistada no Afeganistão.” A única paz que conta é a paz dos negócios americanos. Se nunca tivessem metido seu dinheiro no Afeganistão, nem Al Qaeda, nem Taleban, nem 11 de setembro de 2001, e nem mesmo a atual guerra existiria. Mas, não puderam deixar prevalecer a revolução democrática naquele país. Hoje, o Afeganistão é uma terra arrasada, da qual os EUA não podem abrir mão, pois ocupa lugar vital para os interesses norte-americanos na Ásia central (principalmente por ser vizinho do Irã e da China). O Iraque é mencionado com uma “saída responsável”, enquanto a prisão de Guantânamo, a tortura de prisioneiros e as prisões secretas não são sequer mencionadas. Cuba também não, nem para o mal, nem para o bem.

A bem dizer, a palavra “power” (poder, força) acaba assumindo um papel tão relevante quanto “God”. Aparece também 5 vezes, todas no desenvolvimento do discurso, três das quais diretamente relacionada ao poder militar norte-americano. É nos trechos seguintes que ela assim aparece:

Obama tampouco é socialista, comunista, ou mesmo social-democrata no sentido antigo. A esse respeito ele é muito claro: “A questão com que nos defrontamos também não é se o mercado é uma força boa ou má. Seu poder de gerar riqueza e expandir a liberdade não tem par. Mas, esta crise nos lembrou que, sem um olho atento, o mercado pode sair de controle.” Ou seja, o mercado seria o auge da existência humana, mas precisa de um “olho atento” – não mais que isso – para não provocar uma nova crise. A atual crise do capitalismo, portanto não seria culpa do capitalismo, mas da falta de um “olho vigilante”.

Conflitos internos

O governo Obama, porém, não é de todo mau. Sua política externa é um avanço, ainda que muito tímido, em relação à de seu antecessor. Sua política interna incrivelmente, para quem vê de fora, atenta contra valores muito arraigados em certas frações da população americana (de maneira simplificada, a que vota no Partido Republicano). Até mesmo Fidel Castro, heróico líder revolucionário, chegou a tecer alguns elogios ao presidente vizinho, mas sem deixar de criticá-lo em outros aspectos.22Um exemplo de elogio de Fidel a Obama é El Obama serio. Para quem quiser conhecer mais a opinião do comandante Fidel a respeito de Barack Obama, basta uma pesquisa na internet ou no Granma.

O noticiário é pródigo em falar das dificuldades enfrentadas na tentativa de implementação de um seguro-saúde com participação do Estado, uma forma que Obama criou de rebaixar o preço dos seguros meramente privados. Mercado puro. Capitalismo puro, pois o seguro também seria privado, ainda que subvencionado pelo governo.

Semana passada, por outro lado, o Vermelho publicou duas notícias que me chamaram a atenção: Le Monde: Obama constrangido a repensar estratégia afegã e EUA: Ato contra a guerra no Afeganistão termina com 61 presos. Tratam da oposição crescente à guerra no Afeganistão. Hoje, porém, a Folha Online publicou que Obama enviará mais 13 mil soldados ao Afeganistão. Em suma, trata-se de um governo eminentemente contraditório, mas que não promove a paz, e sim uma “guerra distendida”, uma “imposição multilateral” dos interesses imperialistas.

O imperialismo

E por que posso falar tão facilmente sobre imperialismo, sem analisar mais a fundo a composição do governo em questão, a história recente dos EUA, ou até mesmo a personalidade de seu líder? Simples: o imperialismo, como diz Lênin, é a fase superior do capitalismo – a prevalência do capital financeiro sobre o industrial. É o tempo da exportação de capital, em vez da antiga exportação de mercadorias do capitalismo industrial.33Lênin, Vladímir Ílitch. Imperialismo: fase superior do capitalismo. 1916. Disponível em diversas edições, e também em http://www.marxists.org/portugues/lenin/1916/imperialismo/index.htm. É possível questionar se os EUA atualmente seriam um país imperialista, uma vez que há tempos deixaram de ser exportadores líquidos de capital, sustentando-se apenas na universalidade de sua moeda. Porém, isso é na verdade um sinal da franca decadência do poderio estadunidense, não de uma mudança qualitativa de seu papel no mundo contemporâneo, visto que a situação não se sustenta por muito tempo – vários países, inclusive o Brasil e a Argentina, além da China, já começaram a substituir o dólar como moeda de reserva e de comércio internacional.

Uma característica fundamental do imperialismo é a luta por mercados. Luta ao pé da letra, pois tal disputa já gerou, além de duas guerras mundiais, inúmeros conflitos locais e regionais. Diz Lênin que “as alianças ‘interimperialistas’ […] só podem ser, inevitavelmente, ‘tréguas’ entre guerras. As alianças pacíficas preparam as guerras e por sua vez surgem das guerras, conciliando-se mutuamente, gerando urna sucessão de formas de luta pacífica e não pacífica sobre uma mesma base de vínculos imperialistas e de relações recíprocas entre a economia e a política mundiais.”

Já Georg Dimitrov, não sem razão classificou o fascismo de “ditadura terrorista aberta dos elementos mais reacionários, mais chauvinistas, mais imperialistas do capital financeiro”44Dimitrov, Georg. Relatório ao VII Congresso da Internacional Comunista. 1935. Hoje talvez esgotado nas livrarias, mas possível de se encontrar em sebos. Está também disponível em http://www.marxists.org/reference/archive/dimitrov/works/1935/08_02.htm, definição que até hoje não vi melhor sobre esse fenômeno. Ousaria até dizer que, externamente, o Estado norte-americano é fascista, pois sua estratégia é o terrorismo de Estado como forma de imposição do interesse do capital financeiro – terrorismo que pode se apresentar de diversas formas, como intervenções abertas, sanções, bloqueios etc. Internamente é mais difícil caracterizá-lo assim.

Enfim, não discuto a validade do prêmio Nobel da paz, nem que Obama seja uma boa evolução da política norte-americana. Porém, conceder o prêmio deste ano ao presidente dos Estados Unidos da América não ajuda a torná-lo mais confiável.

Notas:
1O discurso de posse de Barack Obama está disponível no blog da Casa Branca: http://www.whitehouse.gov/blog/inaugural-address/
2Um exemplo de elogio de Fidel a Obama é El Obama serio. Para quem quiser conhecer mais a opinião do comandante Fidel a respeito de Barack Obama, basta uma pesquisa na internet ou no Granma.
3Lênin, Vladímir Ílitch. Imperialismo: fase superior do capitalismo. 1916. Disponível em diversas edições, e também em http://www.marxists.org/portugues/lenin/1916/imperialismo/index.htm. É possível questionar se os EUA atualmente seriam um país imperialista, uma vez que há tempos deixaram de ser exportadores líquidos de capital, sustentando-se apenas na universalidade de sua moeda. Porém, isso é na verdade um sinal da franca decadência do poderio estadunidense, não de uma mudança qualitativa de seu papel no mundo contemporâneo, visto que a situação não se sustenta por muito tempo – vários países, inclusive o Brasil e a Argentina, além da China, já começaram a substituir o dólar como moeda de reserva e de comércio internacional.
4Dimitrov, Georg. Relatório ao VII Congresso da Internacional Comunista. 1935. Hoje talvez esgotado nas livrarias, mas possível de se encontrar em sebos. Está também disponível em http://www.marxists.org/reference/archive/dimitrov/works/1935/08_02.htm
Autor: Leandro Arndt
Temas: Barack Hussein Obama, Estados Unidos da América (EUA), fascismo, imperialismo

3 Comentários

Ernesto Netto comentou em 24 de Outubro de 2009 às 00:22

O socialismo (comunismo) é melhor e "mais bonito" que o capitalismo, para alguns.

VAMOS FAZER PERGUNTAS SIMPLES E LÓGICAS.

Algumas perguntas simples deveriam ser feitas em cima destas afirmações:

1- Porque, se o socialismo é tão melhor, muros de concreto e arame-farpado foram construídos impedindo os descontentes de saírem? Os guardas comunistas tinham ordens de ATIRAR PARA MATAR em quem quisesse fugir (sair) do país.

2- Porque, se o socialismo era tão melhor, as pessoas queriam sair e NÃO queriam entrar nos países comunistas?

3- Porque, se o socialismo é tão melhor, os regimes comunistas tentaram fazer uma conversão forçada, nos moldes da Igreja Católica medieval- converta-se ou morra? Ora, se uma pessoa é impedida de sair de um país e se não lhe permitem ter outra ideologia política, o que lhe sobra?

4- Porque, se o socialismo é tão melhor, a necessidade de polícias espiãs e punitivas como a Stasi na Alemanha Oriental e a KGB na URSS?

5- Porque, se o socialismo é tão melhor, após a queda do muro de Berlim houve uma corrida POPULAR de derrubada dos regimes comunistas?

6- Porque, se o socialismo é tão melhor, a regra são ditaduras totalitárias, repressoras, sem liberdade de ir e vir, sem liberdade de expressão, sem eleições livres e pluripartidárias?

7- Porque, se o socialismo é tão melhor, os países socialistas se transformam em verdadeiros campos de prisioneiros onde a liberdade é a primeira vítima?

8- Porque, se o socialismo é tão melhor, o POVO em multidões derrubou, tirou do poder, um a um dos seus líderes (ditadores) logo após a queda do muro de Berlim? Não seria mais lógico que lutassem por esse "maravilhoso", "benéfico", "justo", "popular" - sistema de governo?

9- Porque, se o socialismo é tão melhor, não é permitida uma imprensa livre e sem censura para divulgar as "maravilhas" do regime?

- SERÁ QUE O SOCIALISMO É "TÃO MELHOR" COMO TENTAM PROCLAMAR?????

Vane comentou em 24 de Outubro de 2009 às 14:50

"Barack Obama não combina com prêmio pela paz." Exatamente o que eu penso!!!

O líder de um país que pensa que seus interesses sobrepõem o interesse dos demais e que só eles têm direito a uma vida digna e rica não pode ser prêmio Nobel da Paz, principalmente porque participa ativamente da desmoralização das demais nações em prol da sua!

Se esse é o ganhador digno do prêmio Nobel da Paz, devemos nos manter longe de todos os que já conseguiram esse títlo - para nosso próprio bem.

Marxismo Online comentou em 20 de Novembro de 2009 às 21:43

Caro Ernesto,

Essas poderiam ser perguntas "simples e lógicas" se tivessem qualquer conexão com o assunto do texto. Não têm. Ademais, partem de pressupostos, e não da análise concreta da realidade. Portanto, não há o que ser respondido se não se quiser ficar preso à sua lógica viciada. Se alguém tiver interesse nessa discussão, sugiro visitar o grupo História e Marxismo, no Café História. Foi lá que essa discussão começou e lá ela prosseguiu.

Atenciosamente,

Leandro Arndt

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