Marx abre O 18 Brumário de Luis Bonaparte com as famosas frases: “Hegel observa em uma de suas obras que todos os fatos e personagens de grande importância na história do mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes. E esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa.”
Com a lembrança de tais palavras, não deixam de me causar preocupação as notícias vindas de Honduras e do Paraguai. O caso de Honduras é claro: golpe militar contra o “comunismo”, o “chavismo”, o “ouro de Caracas”. Mesmas bandeiras de meio século atrás, mesmos métodos de meio século atrás, apenas umas sutis diferenças. Cabe lembrar que meio século atrás o anticomunismo era ainda mais internacional que o comunismo. Hoje também isso não é diferente. Em 2002, golpe contra Chavez. Em 2003, o mesmo. Em 2008, golpe contra Evo Morales. Em 2009, golpe em Honduras. Golpes também no leste europeu e no Cáucaso. Tudo apoiado veladamente pelo Estado norte-americano (como já disse antes, Obama pode ser uma mudança, mas apenas uma mudança muito limitada no belicismo imperial).
É daí que surge minha preocupação. As notícias vindas do Paraguai são assustadoras – ainda mais assustadoras que uma caminhada pelas ruas de Ciudad del Este e pelos seus shoppings protegidos por escopetas à mostra. A realidade paraguaia é triste, muito triste se comparada à de seus vizinhos e inimigos de outrora. Os mesmos países que praticaram o genocídio de meados do século XIX agora são países, se não propriamente ricos, pelo menos muito mais desenvolvidos que o Paraguai. São alguns dos países mais desenvolvidos entre os países subordinados na atual ordem imperialista.
O povo paraguaio finalmente elegeu presidente alguém de fora dos círculos de poder de outrora. Mas, os derrotados não se rendem fácil. Já é de conhecimento de muitos o e-mail atribuído a fazendeiro chileno lá radicado. Remete ao 11 de setembro original, aquele que selou o destino de milhares de chilenos quando da deposição de Salvador Allende, em 1973. E essa história ele quer repetir no Paraguai, formando uma milícia “para perseguir, capturar e liquidar fisicamente a todos os comunistas que atentam contra nossas vidas e posses”, além de “comunicar publicamente ao governo do Sr. Lugo, que sua festa está acabando”.
Um e-mail sozinho, porém, não me causou muita preocupação. Que o governo de Fernando Lugo não é, nem será fácil, isto eu já sabia quando ele foi eleito, e não foi necessária nenhuma bola de cristal. Ele está com sua ação extremamente limitada por contar apenas com a minoria do parlamento e tem que lidar com uma direita extremamente reacionária. Me espantei mesmo quando me informei sobre os últimos acontecimentos por lá.
Li artigo intitulado Paraguai, uma nova Honduras? (o mesmo que refiro acima, quando falo do e-mail). Pablo Stefanoni, do semanário boliviano Pulso, conta as dificuldades vividas por Lugo, fala da ditadura de Alfredo Stroessner, dos anos 1950 até 1989, fala da política “centrista” do atual governo, que no entanto não abandonou o cadastramento das propriedades rurais e a diminuição da cooperação militar com os Estados Unidos. Porém, mesmo sendo tão cuidadoso quanto à realização de grandes mudanças, Lugo é ameaçado num país em que latifundiários protegem suas propriedades com escopetas.
Segundo denúncia do secretário de relações internacionais do Partido Comunista da Venezuela e presidente do Parlamento Latino Americano (Parlatino), os preparativos para o golpe no Paraguai continuam a pleno vapor. A diferença para Honduras é que Lugo não seria retirado da residência presidencial de pijamas. Tramam um julgamento político pelo congresso. Tramam dizer que a voz das urnas não deve ser ouvida. Dirão ao povo como o rei da Espanha: “por que não te calas?” Isso tudo acelerado pela mudança no comando das forças armadas – mais uma semelhança com Honduras.
Por fim, quando do tal “apagão em 18 estados brasileiros” de que a imprensa tanto tem falado, o Paraguai teve sua energia restabelecida em poucos minutos. Que a luz da democracia, por sua vez, não seja apagada definitivamente em nosso vizinho.

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