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A fome na Ucrânia (1932-1933)

Publicado em 18 de Agosto de 2011
Categoria: história
Correio Progressista

Da mesma forma que o massacre de poloneses em Katyn, atribuído de maneira aparentemente falsa à União Soviética, a fome na Ucrânia em 1932-1933 é de tal forma manipulada por “historiadores” anti-soviéticos que chegam a chamá-la de “holodomor”, uma grande fome supostamente deliberada para aterrorizar a população ucraniana. Ao que tudo indica, porém, o “holodomor” é apenas isso: manipulação de fatos para atribuir, com objetivos políticos, falsas causas para tal fome. O texto a seguir é a tradução de um e-mail do historiador J. Arch Getty, um dos melhores historiadores não-comunistas no tema da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Embora não se liberte de conceitos como “estalinismo”, sua pesquisa é séria e embasada criticamente nas fontes. Sempre vale a pena lê-lo.

Não sou um especialista na fome ucraniana, mas sou familiar com a pesquisa recente sobre esse assunto realizada por diversos acadêmicos, e penso bastante a respeito da profunda e abrangente pesquisa que Mark Tauger realizou por muitos anos.

Essa familiaridade me leva a acreditar que não há respostas simples para isso. Uma “fome causada pelo homem” não é o mesmo que uma fome deliberada ou “fome terrorista”. Uma fome causada originalmente por quebras de safra e agravada por políticas deficientes é “agravada pelo homem”, mas apenas parcialmente “causada pelo homem”. Por que nesse campo nós sempre insistimos no absoluto, especialmente o categórico, o binário e polêmico? Falso/verdadeiro. Bom/mal. Quebra de safra/causado pelo homem. Lembra-me a abordagem estalinista.

Muitas questões têm respostas ambíguas.

> 1    Por que as fronteiras da Ucrânia foram fechadas por autoridades soviéticas?

Não necessariamente para punir os ucranianos. Isso também foi feito para impedir que pessoas famintas fugissem para áreas não-famintas, pressionando seus exíguos estoques de alimentos, e portanto transformando um desastre regional em um desastre universal. Este foi também o motivo original para o sistema de passaporte interno, que foi adotado num primeiro momento para impedir o deslocamento de pessoas famintas e desesperadas e, com elas, o alastramento da fome.

> 2    Por que jornalistas estrangeiros, até mesmo apologistas de Stálin como Duranty, tiveram negado o acesso às áreas famintas?

Pela mesma razão pela qual jornalistas dos EUA não podem mais adentrar zonas de combate americanas (Guerra do Golfo, Afeganistão) desde o Vietnã. Nenhum regime anseia pela chance de más notícias se puderem controlar a situação de outra maneira.

> 3    Por que a ajuda de outros países foi recusada?

Obviamente, para impedir que os “imperialistas” tivessem uma chance de trombetear a falência do socialismo. Certamente a política triunfou sobre o humanismo. Além do mais, na crescente paranóia daqueles tempos (e baseado na experiência da Guerra Civil), o regime acreditava que espiões vinham junto da administração de ajuda humanitária.

> 4    Por que eu leio e ouço histórias de famílias que tentaram levar suprimentos de outras regiões para ajudar seus parentes no período e tiveram todos os alimentos confiscados quando eles tentavam adentrar as regiões da fome?

O regime acreditava, e penso que com razão, que especuladores estavam tentando levar vantagem no desastre comprando comida em áreas não-famintas (mas ainda assim com escassez alimentar), levando-a à Ucrânia e revendendo-a a um preço mais elevado. Em um estilo verdadeiramente bolchevique, não havia nuances na análise, deixando-se de distinguir entre famílias e especuladores, e todos eram barrados.

Como no ponto 1 acima, regimes enfrentando a fome tipicamente tentam conter o desastre geograficamente. Isso não é o mesmo que tentar punir as vítimas.

> 5    Se foi uma quebra de safra, por que o peso daquela quebra não foi compartilhado por toda a União Soviética?

Ele foi. Nenhuma região tinha muitos alimentos em 1932-1933. Os alimentos eram escassos e caros em todo lugar. Todos tinham fome.

Com as sugestões acima, eu não tento criar desculpas para os estalinistas. A conduta deles foi errática, incompetente e cruel, e milhões sofreram inimaginavelmente e morreram em decorrência. Mas é simples demais explicar tudo com uma declaração como “os bolcheviques eram simplesmente pessoas más”, mais adequada a crianças do que a acadêmicos.

Era mais complexo que isso. Apesar de a situação ter se agravado de algumas maneiras em conseqüência dos erros dos bolcheviques, as tentativas deles de conter a fome, uma vez iniciadas, não eram inteiramente estúpidas, nem eram gratuitamente cruéis. Os estalinistas, por sinal, em determinado momento cortaram a exportação de grãos e, por sinal, enviaram ajuda alimentar à Ucrânia e a outras áreas. Era um pouco tarde demais, mas não há evidência (exceto assertivas constantemente repetidas por alguns escritores) de que isso foi uma “fome terrorista” deliberadamente infligida.

Finalmente,

> Bastante acetadamente, negar o genocídio judeu traz o opróbio. Certamente negar a fome terrorista de 1932-1933 traz a mesma reação.

Esse é um posicionamento que eu pessoalmente considero grotesco, insultante e pelo menos raso. Ninguém está negando a fome ou a grande escala do sofrimento (como os negacionistas do holocausto fazem), menos ainda Tauger ou outros pesquisadores que dispenderam muito de suas carreiras tentando trazer à luz essa tragédia e nos dar uma análise factual dela. Assumidamente, o que ele e outros acadêmicos fazem é diferente do trabalho de jornalistas e polemistas que indiscriminadamente coletam histórias de horror e as amontoam entre afirmações repetitivas sobre o mal, juntando tudo isso e chamando de história.

Uma análise factual e cuidadosa do horror não o torna menos horrível.

J. Arch Getty
Professor de história, UCLA

Autor: John Arch Getty
Temas: burguesia, socialismo, socialismo real - crítica, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS)
Séries: URSS: história
Série URSS: história
3. Stálin, um democrata: uma nova Constituição – a publicar
2. A fome na Ucrânia (1932-1933)
1. Katyn: 49 sinais de falsificação do “pacote secreto nº 1”

3 Comentários

Avoador comentou em 24 de Maio de 2012 às 01:22

Interessante.
Este historiador, então, não nega, nada.
Não nega que houve a fome e que o cerco fora forçado pelo regime comunista.
Ele, apenas, tenta justificar as atitudes de Stanlin. Certo?
Há nacionais socialistas que tem motivos semelhantes para justificar as atitudes de Hitler.
Comunismo e Nazismo, são irmãos que dizem não gostar um do outro mas, ambos puxaram o mesmo gene, totalitário.

Leandro Arndt comentou em 10 de Julho de 2012 às 09:35

Não há, que eu saiba, quem negue a fome ucraniana no início dos anos 1930, que ademais foi, em menor escala, sentida em toda a União Soviética. Não houve, contudo, uma ação que possa ser chamada "genocídio", como alguns insistem em chamar esse acontecimento. Leia bem a resposta à pergunta 5:

> 5    Se foi uma quebra de safra, por que o peso daquela quebra não foi compartilhado por toda a União Soviética?

Ele foi. Nenhuma região tinha muitos alimentos em 1932-1933. Os alimentos eram escassos e caros em todo lugar. Todos tinham fome.

Com as sugestões acima, eu não tento criar desculpas para os estalinistas. A conduta deles foi errática, incompetente e cruel, e milhões sofreram inimaginavelmente e morreram em decorrência. Mas é simples demais explicar tudo com uma declaração como “os bolcheviques eram simplesmente pessoas más”, mais adequada a crianças do que a acadêmicos.

Era mais complexo que isso. Apesar de a situação ter se agravado de algumas maneiras em conseqüência dos erros dos bolcheviques, as tentativas deles de conter a fome, uma vez iniciadas, não eram inteiramente estúpidas, nem eram gratuitamente cruéis. Os estalinistas, por sinal, em determinado momento cortaram a exportação de grãos e, por sinal, enviaram ajuda alimentar à Ucrânia e a outras áreas. Era um pouco tarde demais, mas não há evidência (exceto assertivas constantemente repetidas por alguns escritores) de que isso foi uma “fome terrorista” deliberadamente infligida.

Leandro Arndt comentou em 10 de Julho de 2012 às 09:36

Além disso, caro "Avoador", foi nessa mesma época e por esse mesmo motivo que a Internacional Comunista criou o Socorro Vermelho Internacional, uma espécie de Caritas comunista.

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