Arquivado no Caritas in Veritate

Marxismo Online

Marxismo e história na internet

Correio Progressista Falha de São Pedro Marxpédia Notícias e Análises Contato

Katyn: 49 sinais de falsificação do “pacote secreto nº 1”

Publicado em 17 de Agosto de 2011
Categoria: história
Correio Progressista

A história é uma ciência que demanda muitos cuidados do pesquisador. Suas fontes de informação são objetos, documentos e relatos produzidos por pessoas imersas em uma sociedade determinada e com determinadas intenções. Suas fontes podem até mesmo ser resultado de falsificação deliberada, e o historiador muitas vezes não está preparado para reconhecer os sinais disso. Em especial, o historiador ocupa um lugar na sociedade – no meu caso, como o de muitos grandes historiadores, um lugar revolucionário, em outros, um lugar tendente a perpetuar as formas de dominação existentes.

Ao examinar a história soviética, temos uma presença muito forte desse lugar social. Os historiadores muitas vezes se afastam da ciência e acabam penetrando no campo da ideologia, distorcendo ou ignorando as fontes e deixando de criticá-las em sua formalidade (se é coeva, autêntica, como foi produzida etc.) e em seu conteúdo (por quem foi produzida, para quem, com que finalidade…). Estas séries de postagens que inicio aqui (URSS: história e especialmente Katyn: verdade ocultada) têm justamente tal objetivo.

O início desse trabalho é a tradução de uma postagem num blog sueco, Mythckracker‘s Weblog, onde o autor faz justamente essa crítica tão necessária – afinal, as fontes que apontam para uma responsabilidade do governo soviético no massacre de prisioneiros de guerra poloneses são autênticas? É um estudo no qual venho me aprofundando ultimamente, e naquelas séries exporei minhas conclusões. Alguns apontamentos, porém, já escrevo nas notas desse texto, com o qual em grande parte concordo.

Por fim, Katyn: 49 signs of falsification of “Closed package no. 1” foi traduzido diretamente da publicação em inglês e as citações de textos russos foram, na medida do possível, traduzidas do original na língua russa. Preste atenção também nas notas da tradução, onde faço os já mencionados apontamentos. Espero suas críticas nos comentários ao final da postagem!

Katyn: 49 sinais de falsificação do “pacote secreto nº 1”11Nota do Tratudor (NT). Preferi usar o termo “secreto” em vez de “fechado”, ambos corretos, dada a natureza do objeto e a forma como ele é tratado.

Por Mythcracker

Parte I. O local de armazenamento, as circunstâncias acerca da descoberta e da divulgação desses documentos

1. É incerto onde o “pacote secreto nº 1” estava guardado antes de dezembro de 1991. As circunstâncias acerca da “descoberta miraculosa” desses documentos pelos empregados do Arquivo Presidencial soviético também estão envoltas em mistério.

M. S. Gorbachev22NT. Uso aqui a mesma grafia do texto original. A transliteração do alfabeto cirílico, usado na língua russa, para o latino é controversa. afirmou que ele, até dezembro de 1991, não havia visto tais documentos, enquanto os dois “pacotes secretos” do Politburo33NT. Comissão Política do Partido Comunista da União Soviética (PCUS). a respeito de Katyn estavam armazenados com todos os outros documentos e tratavam da culpa da Alemanha no massacre de Katyn.44NT. Interessante notar aqui como Gorbachev fala a respeito disso em sua autobiografia – Жизнь и реформыVida e Reforma, em português:
Os soviéticos, como oficialmente registrado no anúncio da [agência de notícias] TASS de 13 de abril de 1990, expressando profundo arrependimento com relação à tragédia de Katyn, declararam que parecia ser um dos graves crimes de Stálin.
No que concerne aos outros documentos relacionados à tragédia de Katyn, segundo me lembro estavam em duas pastas, as quais me foram mostradas por Boldin na véspera de minha visita à Polônia. Porém, naquelas pastas havia documentos corroborando a versão da comissão do acadêmico Burdenko [comissão soviética que em 1944 investigou o massacre e o atribuiu à Alemanha nazista]. Era uma coletânea de materiais, todos de acordo com aquela versão.

Ressalte-se que a conjunção adversativa utilizada no início da penúltima frase no texto original, но (pronuncia-se “nó”), é um tanto mais forte que um simples “mas”, ou “porém”. Não estaria muito errado traduzir aquela frase como "O problema era que naquelas pastas havia documentos corroborando a versão da comissão do acadêmico Burdenko [de que a Alemanha nazista havia cometido o massacre]”.
Apenas alguns dias antes de Gorbachev renunciar ao cargo de presidente da União Soviética, aos 24 de dezembro de 1991 (infere-se que de moto próprio) os empregados do arquivo lhe entregaram, através do chefe de gabinete Grigory Revenko o pacote com os documentos encontrados (Zhizn i reformyVida e reformas –, livro 2, Moscou, 1995, pp. 348-349).

A. N. Yakovlev afirmou tanto em seu livro Sumerki (Crepúsculo), como em diversos artigos e aparições públicas, que, até 24 de dezembro de 1991, ele nunca havia visto esses documentos. Além disso, Yakovlev revelou um detalhe importante, a saber, que no pacote com os documentos sobre Katyn entregue a Gorbachev naquele dia havia também uma “carta de Serov”. Mas, no inventário documental do “pacote secreto nº 1” que foi entregue por Gorbachev a Yeltsin, aquela carta está faltando.

A. Yu. Yablokov afirma em seu livro Katynskij sindrom… (A síndrome de Katyn), p. 386: “Em julho de 1992 o então chefe da Administração Presidencial Yu. V. Petrov, o conselheiro presidencial D. A. Volkogonov, o chefe do Arquivo Central R. G. Pichoya e o dirigente do Arquivo A. V. Korotkov vasculharam os materiais mais secretos no Arquivo do Presidente Russo. Em 24 de setembro de 1992, eles abriram o ‘pacote secreto nº 1’.”

Isso significa que alguém está mentindo – ou Gorbachev e Yakovlev, que afirmam que tais documentos foram guardados por Gorbachev e que no início do inverno de 1991 estes foram entregues a Yeltsin na presença de Yakovlev,55NT. Informação corroborada pela lista com o conteúdo do “pacote secreto nº 1”, datada de 24/12/1991. ou os empregados do arquivo, que afirmam ter encontrado o pacote eles mesmos pela primeira vez no outono de 1992. Neste caso, porém, fica claro tanto o primeiro quanto o último estão mentindo. Aqueles documentos não foram encontrados em nenhum arquivo ou pacote. Foram forjados, mas eles não conseguiram inventar uma história coerente e forçar todos os envolvidos a sabê-la de cor, especialmente os dirigentes superiores, razão pela qual estes foram forçados a mentir com base no que conseguiam lembrar.

2. Os documentos em questão foram tornados públicos pela primeira vez no outono de 1992 durante a reunião da Corte Constitucional como evidências da culpa do Partido Comunista da União Soviética no massacre de Katyn, mas um exame superficial pelos juízes logo revelou sua falsidade, o que resultou no fato de que a Corte Constitucional, em seu veredito final, nem sequer mencionou tais acusações.

3. A falsificação é atestada pelo fato de que esses “documentos” verdadeiramente sensacionais não foram apresentados ao público russo imediatamente após sua descoberta, apesar do fato de que a imprensa estava repleta de citações deles. Com o fiasco na Corte Constitucional o texto de alguns desses documentos foi publicado depois de 2 anos, mas não em uma revista de história qualquer, e sim na chamada “edição periódica” da revista Voyennye arkhivy Rosii (Arquivo militar da Rússia). Após a aparição do número 1 da revista, na qual algumas dessas falsificações foram publicadas junto com outros documentos autênticos dos arquivos russos, a revista e sua editora desapareceram sem deixar rastro.

4. Nessa primeira publicação dos “documentos”, os editores não indicaram as peculiaridades dos mesmos do ponto de vista do gerenciamento de arquivos, as quais demonstrariam diretamente a falsidade deles, isto é, os próprios editores perceberam que estavam publicando falsificações.

5. Na revista Voprosy istorii (Questões históricas) nº 1/1993, onde esses “documentos” foram descritos pela primeira vez na Rússia, apenas descreveram três dos cinco documentos, mas, apesar dessa diminuição, essa edição só foi entregue aos assinantes e às bibliotecas em 1995.

6. Na Rússia até hoje não foi ainda publicado oficialmente o mais importante documento (quanto ao grau de falsidade) do “pacote secreto nº 1” – o assim chamado “extrato para Shelepin” (não confundir com a “carta de Shelepin”!). Isto confirma mais uma vez que os próprios publicadores estavam seguros, e ainda estão, do fato de que esses documentos por eles publicados são forjados.66NT. Não sei de onde procede a informação da existência de tal extrato, visto que o documento com a lista do conteúdo do “pacote secreto nº 1” não o menciona. Considerando, porém, o hábito de extrair dos documentos ultra-secretos apenas as informações essenciais, tal extrato deveria existir caso a suposta decisão de destruir os documentos relativos a Katyn tivesse sido tomada. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a suposta decisão do Comitê Central do Partido Comunista soviético de formar uma junta supostamente destinada a condenar os poloneses à morte, e que está entre os documentos aqui contestados.

Parte II. Informação que não bate com fatos históricos reais

7. Nos documentos do “pacote secreto nº 1”, fala-se sobre a formação de uma certa troika especial no NKVD77NT. NKVD: sigla russa para Comissariado do Povo para Assuntos Internos. Troika é o conjunto de três em russo, e seu plural é troiki – contudo, foi mantida a forma usual dos textos em inglês ou português, “troikas”.”, a qual, conforme eles dizem, teria sentenciado os poloneses à morte. Mas, na grande parte dos documentos de arquivo daquele período, não há o menor sinal nem da formação de qualquer “troika” (como afirmado nos documentos em questão), nem de que qualquer polonês tenha sido executado na União Soviética em 1940 por meio de qualquer processo extrajudicial. Para usar as palavras do especialista em arquivos A. P. Kozlov, “esses documentos se sobressaem porque vão contra outros fatos reais incontestáveis desse período e que são conhecidos por meio de fontes autênticas”.

8. As troikas judiciais verdadeiras naqueles anos serviam para, de acordo com a culpa, sentenciar ou absolver os acusados. Na “carta de Beria”88NT. A palavra russa não é específica como os termos portugueses “memorando” e “ofício”. Trata-se, contudo, de um suposto ofício do chefe do NKVD para a Comissão Política do Partido Comunista de Toda a União (bolchevique) – VKP(b), na sigla em russo., à troika não é atribuído nenhum poder judicial, mas apenas o dever de providenciar a execução dos poloneses, ou seja, a troika não é investida de nenhuma função judicial definida. Tal “troika” é diretamente embaraçosa para seus membros. O Beria real nunca teria sugerido ao Politburo retirar de seu trabalho usual três dirigentes superiores do NKVD (inclusive o próprio Beria) para sentarem e assinarem 22.000 papéis, os quais ninguém além deles iria ler.99NT. Atribuir vontades ou decisões não expressas pelas pessoas reais é bastante complicado para um historiador. Porém, trata-se de uma conclusão a respeito da natureza puramente burocrática do trabalho da “troika”. Agregue-se que outras conclusões podem ser retiradas da parte final do documento em questão quando exposto às evidências materiais de falsificação. Tais evidências são mencionadas adiante (indício nº 23), e o parecer do perito criminal Eduard Petrovitch Molokov a respeito das máquinas de escrever utilizadas será publicado aqui no Marxismo Online futuramente.

9. Na criação da “troika”, o princípio-chave para o estabelecimento das troikas judiciais, qual seja, serem formadas por membros importantes do NKVD e do VKP(b) (o Partido Comunista) e com a a participação obrigatória de um promotor público, foi violado1010NT. No original não aparece a expressão “foi violado”, sem a qual a frase fica sem sentido..

10. Nessa “troika” foi violado o princípio de iguais encargos de seus membros – aos dois dirigentes superiores do NKVD (comissário do povo e seu imediato) foi adicionado um chefe do terceiro escalão. Emtroikas judiciais reais era inconcebível a participação de subordinados a qualquer um dos membros da troika.1111NT. Nas críticas de 9 a 12, presume-se que se trataria de uma troika judicial. Contudo, como a última página pode ser a única autêntica em tal documento – v. a segunda nota anterior a esta e o indício nº 23 –, é possível que se tratasse de outra espécie de comissão, coincidentemente formada por três pessoas. Kobulov, responsável pela área econômica do NKVD, e os outros dois poderiam ter participado de uma junta para analisar outro tipo de decisão a ser tomada relativamente aos detentos – arestovanyi – e até mesmo aos prisioneiros de guerra – voyenoplenie –, mas não relacionada a matérias propriamente judiciais.

11. Beria não poderia sugerir a criação de uma “troika”, visto que todas as troikas judiciais haviam sido abolidas por uma decisão conjunta do governo soviético (Sovnarkom1212NT. Nos documentos analisados por mim – além daqueles do “pacote secreto nº 1” –, a sigla utilizada é SNK.) e do Comitê Central do Partido Comunista (TsK VKP(b)), ou seja, nenhuma “troika” era então permitida do ponto de vista legal. Após a adoção da decisão conjunta, nenhuma decisão de prender ou executar alguém poderia ser levada a cabo se procedesse de uma “troika” ilegal como essa, oficialmente proibida na União Soviética pelo governo e pelo partido.

12. Se você assume que os documentos do “pacote secreto nº 1” são autênticos, então iso significa que a Comissão Política do Comitê Central do Partido Comunista teria excedido seus poderes – o Politburo decidiu estabelecer uma “troika” a despeito do fato de que a instância dirigente do partido (o Comitê Central) havia abolido tais formações. O mesmo é simplesmente inconcebível. Em decisão datada de 17 de novembro de 1938, o Conselho de Comissários do Povo da URSS (Sovnarkom, isto é, o governo da União Soviética) e o Comitê Central do Partido Comunista – a instância dirigente do partido, superior ao Politburo – ordenaram o seguinte: “Liquidar as troikas judiciais criadas mediante ordenamento específico do NKVD da URSS, bem como as troikas nas administrações da milícia em nível de província, região e república. De agora em diante, todos os casos, em estrita concordância com as determinações legais, devem ser entregues à corte competente ou à Comissão Especial do NKVD da URSS.”1313NT. Essa questão é sumamente interessante, especialmente sendo uma posição que teria determinado a atuação de Lavrenti Beria, visto que o mesmo assumiu a chefia do NKVD justamente nesse período – mais exatamente, 8 dias após a decisão do governo soviético e do Comitê Central do Partido Comunista. No dia seguinte a sua posse no cargo de comissário do povo para assuntos internos, Beria cancelou todas as ordens que embasavam o “grande expurgo”, e, em menos de um mês, determinou a anulação de todas as sentenças das troikas de que o acusado não tivesse sido intimado antes de 17 de novembro de 1938. Também é importante notar, como na crítica nº 14, que Yezhov, antecessor de Beria no NKVD e um dos responsáveis pelos expurgos, foi executado apenas um mês e um dia antes da suposta “carta de Beria” determinando que se fizesse algo semelhante ao que levou Ejov à “morte natural no paredão” – estaria Beria também procurando esse caminho? Acredito ser bastante improvável.

13. Nos documentos do “pacote secreto nº 1”, não foram incluídos os 395 oficiais, policiais e guardas de fronteira capturados, os quais – enquanto os outros prisioneiros de guerra (POWs) foram enviados para os campos de trabalho e de correção da GUZhDS1414NT. GUZhDS é a sigla de Administração Central para a Construção de Ferrovias, órgão do NKVD da URSS. – foram enviados para os campos de POWs em Yukhnov e depois para Gryazovets.

14 A “decisão do Politburo” inserida nesses “documentos” era impraticável para Beria: por pura autopreservação, seus auxiliares teriam encontrado uma maneira de evitar executar uma ordem criminosa como aquela. Foi a fiel execução das ordens criminosas de seu chefe que em 1937-1938 levou os mais próximos colaboradores de um dos antecessores de Beria, Yagoda (chefe do NKVD até setembro de 1936), à execução. E não muito tempo antes desses acontecimentos, em 4 de fevereiro de 1940, auxiliares de Yezhov haviam sido executados por essa mesma razão (Yezhov, também executado a 4 de fevereiro de 1940, foi o antecessor de Beria no cargo de Comissário do Povo para Assuntos Internos).1515NT. A “carta de Beria” seria datada de 5 de março desse mesmo ano, apenas um mês e um dia após a execução de Yezhov e seus auxiliares. O mundo inteiro sabia que os poloneses estavam presos na União Soviética, e ninguém nos escalões superiores do NKVD se daria ao trabalho de correr qualquer risco para levar a cabo uma ordem de execução ilegal como essa emanada de Beria, o qual trabalhava no NKVD havia apenas um ano e meio e havia pouco mais de 15 meses ocupava o cargo de Comissário do Povo.1616NT. Acrescente-se que a cronologia exposta aqui e na terceira nota anterior a esta demonstra que Beria havia sido nomeado para o NKVD justamente para pôr fim às condenações e execuções em massa.

Parte III. Contradições internas

15. A “carta de Beria” contém a sugestão de executar 25.700 cidadãos da antiga Polônia1717NT. Quando os alemães invadiram a Polônia em agosto de 1939, todo o governo polonês fugiu para a Romênia, deixando um vazio de poder. Sem direção, o Estado polonês deixava de exitir enquanto tal, razão porque se diz “antiga Polônia”., enquanto a “carta de Shelepin” diz que apenas 21.857 teriam sido efetivamente executados. Não é dada nenhuma explicação sobre como os outros 3.843 poloneses, que obviamente teriam sido sentenciados à morte, escaparam da execução.1818NT. A “carta de Beria” diz:
Sugerir ao NKVD da URSS [ou seja, o “autor” da carta propõe sugerir a si mesmo]:
1. Com relação aos 14.700 indivíduos que se encontram nos campos para prisioneiros de guerra […]
2. e também aos detentos que se encontram nos presídios das regiões ocidentais da Ucrânia e Belarus, num total de 11.000 indivíduos [nesses presídos] […]
– considerar a aplicação especificamente da maior medida punitiva – execução.

Já na “carta de Shelepin” encontramos:
No todo, conforme decisão da troika especial do NKVD da URSS foram executados 21.857 indivíduos, dentre eles: no bosque de Katyn (região de Smolensk), 4.421 indivíduos*, no campo de Starobelsk, próximo a Kharkov, 3.820 indivíduos, no campo de Ostashkovsk (região de Kalinin), 6.311 indivíduos, e 7.305 indivíduos foram executados em outros campos e prisões da Ucrânia ocidental e de Belarus ocidental.
* O texto tido como original, com letras verdadeiramente desenhadas à mão, traz um erro de grafia: челвек, em vez de человек.
A inconsistência da versão de “culpa soviética” no caso fica ainda mais patente pelo fato de que nas valas comuns do bosque de Katyn (onde a “carta de Shelepin” afirma terem sido executados 4.421 indivíduos) foram encontrados cerca de 11.000 corpos.

16. Na “carta de Beria”, 14.736 oficiais e 18.632 detentos são declarados “inimigos inveterados do poder soviético”, mas é sugerido executar 14.700 oficiais e 11.000 detentos; isso, sem qualquer explicação do que fazer com os demais inimigos “inveterados” e de como se poderia distinguir os que deveriam ser executados dos que não deveriam. Por meio de uma decisão assim, os poderes da “troika” seriam delegados aos reponsáveis diretos pela execução das ordens, e eles seriam obrigados a decidir por si mesmos quem deveria ser sentenciado à morte, o que é inconcebível e algo que nunca poderia existir numa decisão real de Beria.

17. De acordo com as anotações no verso do “extrato para Beria”, no período de 5 de março de 1940 a 15 de novembro de 1956, foram impressas duas cópias do “extrato para Beria”, e duas cópias foram destruídas em 15 de novembro de 1956. Considerando a estrita confidencialidade que envolvia os documentos no “pacote secreto nº 1”, tais manipulações do extrato, de finalidade desconhecida, não podem ser explicadas de maneira racional.

Parte IV. “Carta de Beria” nº 794/b (№ 794/б)

18. De um ponto de vista puramente formal e legal, a “carta de Beria” nº 794/b é forjada porque atributos-chave elementares – a data e o número – não correspondem um ao outro. Isso porque, de acordo com os registros oficiais, a carta nº 794/b, que foi enviada a Stalin desde o NKVD, era datada de 29 de fevereiro, mas nos arquivos foi encontrada uma carta completamente diferente, mas com o mesmo número – 794/b, do mês de março de 1940 – mas sem indicação de data.1919NT. Desconheço o documento relativo ao controle de protocolo. Certamente irei procurar e adicionar ao final desta postagem. É interessante esclarecer, porém, que na primeira página da carta consta no lugar da data o mês de março de 1940, mas sem informação de dia. Na última página, há uma anotação da data de 5 de março de 1940 feita com lápis azul. Já no arquivo eletrônico de Alexandr N. Yakovlev – o mesmo Yakovlev citado na crítica 1 – consta como informação de data “antes de 5 de março de 1940” (Ранее 05.03.1940). Não consta de onde Yakovlev ou seus funcionários retiraram tal informação. Contudo, uma pesquisa no mesmo arquivo revelará que o documento nº 641/b data de 22/02/1940, o nº 710/b (mencionado em outro documento) data de 26/02/1940, o nº 810/b data de 02/03/1940, o nº 949/b, de 04/03/1940, e, finalmente, o nº 953/b, de 11/03/1940. Ou seja, o número 749/b (a tal “carta de Beria”) está fora da ordem cronológica, pois teria necessariamente de ser anterior a 2 de março e posterior a 22 de fevereiro – a data tida como correta é 5 de março. Dessa maneira, é provável que a carta verdadeira realmente fosse datada de 29 de fevereiro de 1940, o que provoca outras inconsistências, conforme crítica nº 22. Por fim, o documento nº 949/b trata de reforçar o cumprimento da decisão do Partido Comunista e do Conselho de Comissários do Povo em 17 de novembro de 1938 que proibiu a existência de troikas ad hoc para o exercício de funções judiciais, decisão comentada nas críticas nº 11 e 12. Para compreender o absurdo da situação, imagine uma pessoa cujo passaporte está cheio de erros, e como data de expedição consta março, mas depois, de acordo com o controle do Ministério da Justiça, descobre-se que o passaporte foi expedido em fevereiro!

19. Na “carta de Beria”, a resolução e a assinatura dos membros do Politburo são escritas de tão maneira que as linhas da “carta” enquanto era assinada deveriam estar na vertical. Nenhum líder destro na realidade assina dessa maneira. Contudo, um especialista em assinaturas forjadas poderia escrever exatamente dessa maneira – se ele quisesse deixar uma pista oculta de que o documento fora forjado.2020NT. Não considero que essa seja a melhor das críticas, visto que não há nenhum impedimento para que as assinaturas tenham sido feitas com o papel nessa posição. Se for um caso único ou houver outros indícios relativos à falsificação das assinaturas (e considero que há, mas reservo para um momento futuro, onde poderei detalhar mais tal indício), então sim isso seria algo a mais para provar tal tese.

20. A “carta de Beria” tem um número, mas não uma data.2121NT. Vide nota no item 18. Em um documento autêntico isso seria impossível, uma vez que esses fazem parte da mesma anotação no registro de protocolo, e nesse caso a data é mais importante que o número.

21. Na “carta de Beria”, os generais foram descritos na mesma linha que os tentente-coronéis, o que seria impossível num documento autêntico do NKVD. Em todos os documentos autênticos do NKVD os generais eram descritos em uma linha separada e nunca misturados aos coronéis.2222NT. O autor fala do quantitativo de generais, coronéis e tenentes-coronéis, na página 2 da suposta “carta”, folha 131 no arquivo, onde Beria informaria a quantidade de prisioneiros de guerra nos campos, conforme a ocupação ou a patente. A primeira linha da listagem informa: “Generais, coronéis e tenente-coronéis - 295”. A crítica procede, uma vez que as organizações militares – e o NKVD não estava alheio a isso, apesar de se tratar de um comissariado civil – distinguem rigidamente os oficiais generais dos demais.

22. De acordo com a certidão da Administração do Arquivo do Serviço de Segurança Federal, a carta nº 794/b foi registrada no secretariado do NKVD no dia 29 de fevereiro de 1940. Uma carta autêntica de Beria datada de 29 de fevereiro não poderia conter registros das informações prestadas por Soprunenko aos 3 de março2323NT. O autor fala da série de correspondências de Soprunenko acerca da quantidade de prisioneiros de guerra do antigo exército polonês, da polícia etc. mantida nas províncias ocidentais da Ucrânia e de Belarus. Mais especificamente, este documento traz a informação detalhada sobre as patentes dos presos de guerra., que aparecem na “carta de Beria” do “pacote secreto nº 1”. Conseqüentemente, a “carta de Beria” nº 794/b com tal informação é falsa.

23. As primeiras três páginas da “carta de Beria” não foram escritas com a mesma máquina de escrever da página quatro (há até o parecer de um perito que comprova isso2424NT. O parecer do perito Eduard Petrovitch Molokov está disponível em http://katyn.ru/index.php?go=Pages&in=view&id=946 e será publicado aqui futuramente, devidamente traduzido. A página 4 não faz qualquer menção à execução de qualquer pessoa, como bem diz a crítica nº 24.). Uma corte entenderia que isso seria impossível em uma carta autêntica do NKVD, porque se você muda o início de um documento após o comissário do povo tê-lo assinado, isso é o cometimento de um crime.

24. A página quatro foi escrita numa máquina de escrever utilizada em outras cartas de Beria reconhecidamente autênticas, enquanto as três primeiras páginas foram escritas numa máquina de escrever cujos tipos não foram encontrados em qualquer uma das 15 cartas de Beria no período de dezembro de 1939 a setembro de 1940 encontradas nos arquivos até hoje.

Isso revela o caminho mais provável na falsificação da carta.

Os falsificadores provavelmente pegaram do arquivo a carta verdadeira de Beria numerada 794/b, datada de 29 de fevereiro de 1940, e que conteria a sugestão de que os poloneses seriam sentenciados pelo Conselho Especial do NKVD a várias penas em prisões ou campos de trabalho. Os falsificadores destruíram as primeiras páginas e em seu lugar imprimiram três páginas novas, alteradas de forma a que Beria sugerisse que os prisioneiros de guerra poloneses fossem executados. Depois disso, adicionaram à três páginas forjadas uma quarta (original), na qual Beria sugeria uma quantidade (“troika”) e e os membros (Beria, Merkulov, Bashtakov) para comporem o Conselho Especial. De acordo com o “Regulamento do Conselho Especial”, essa quantidade e composição difeririam de acordo com o tipo de matérias a serem investigadas. Se o caso tivesse ocorrido dentro das fronteiras de uma das repúblicas da União, então um dos membros seria o Comissãrio do Povo para Assuntos Internos (NKVD) daquela república, se a matéria era estritamente criminal, então também o chefe da milícia (polícia) também comporia o Conselho. Neste caso em particular, Beria sugeriu um Conselho Especial com uma composição reduzida – consistindo em três pessoas –, uma troika. Ele sugeriu a si próprio como chefe (ele era o chefe do Conselho Especial de acordo com o regulamento), seu primeiro assessor (também membro do Conselho Especial de acordo com o regulamento) e o chefe do departamento que preparara todos os processos relativos aos prisioneiros de guerra para investigação pelo Conselho Especial – para a conveniência da organização e realização das reuniões. A sugestão de Beria era lógica, mas ainda distanciava da prescrição do Regulamento do Conselho Especial – o chefe do Primeiro Departamento Especial, membro do Conselho Especial, não havia sido nomeado, razão pela qual Beria coordenou sua sugestão com o Politburo.

Mas o Politburo não compartilhava da visão de Beria. Eles acharam que não poderiam permitir que o próprio comissário do povo desperdiçasse seu tempo analizando cerca de 20.000 processos criminais. Foi por isso que Stalin riscou Beria da lista e em seu lugar colocou o vice-comissário do povo do NKVD, Merkulov, como chefe do Conselho Especial e complementou a lista com Kobulov, que era o chefe do Departamento Principal para a Economia do NKVD, e que por isso lidava com a investigação de assuntos relacionados aos prisioneiros de guerra e seu uso no trabalho. Vale notar que Stalin não escreveu o nome de Kobulov acima do de Beria (o que significaria que Kobulov teria sido apontado como chefe), mas escreveu seu nome depois do de Merkulov e antes de Bashtakov. Ou seja, se se assume que as primeiras três páginas da “carta de Beria” são falsificações e que a carta original seria sobre o Conselho Especial, então uma carta assim seria plenamente coerente com todos os fatos históricos conhecidos.

Parte V. O “extrato do protocolo do Politburo” nº 1 (destinado a Beria)

25. O formulário começa com um aviso: “Sujeito a devolução em até 24 horas no 2º departamento do Setor Especial do TsK [Comitê Central]”. À esquerda há um outro aviso, escrito na vertical: “O camarada que receber um documento secreto não pode nem repassar, nem dar a conhecer o que lhe foi entregue se não houver nesse sentido nenhuma determinação especial do TsK. Copiar os documentos mencionados e produzir cópias deles é categoricamente proibido. A anotação e a data do escrutínio deve ser aposta em cada documento pessoalmente pelo camarada a quem o documento se destina, e por ele deve ser pessoalmente assinada. Fundamento: resolução do pleno do TsK VKP(b) de 19/08/1924.”

O “extrato para Beria” é o original, enquanto o “extrato para Shelepin” é uma reimpressão. Seria exatamente esse original que deveria ser entregue a Beria para análise. Mas, no “extrato para Beria” não há qualquer anotação ou assinatura de L. P. Beria que confirmariam que ele teria tido vistas do extrato em 1940 e 1941.

26. No “extrato para Beria” faltam os obrigatórios carimbo do TsK VKP(b) e a assinatura facsimilar do secretário do Comitê Central, J. Stalin.

27. O “extrato para Beria” foi impresso em um formulário que não era o padrão usado pelo Politburo em casos assim. Até hoje se conhecem apenas dois formulários desse tipo – ambos são do “pacote secreto nº 1” sobre Katyn.

28. No formulário do “extrato para Beria” falta um elemento obrigatório de todos os documentos oficiais do TsK VKP(b), a saber, a palavra-de-ordem “Trabalhadores do mundo, uni-vos!” Todos os formulários confeccionados para documentos a serem enviados a outros órgãos sempre começavam com a mais famosa palavra-de-ordem comunista: “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”

Parte VI. O “extrato do protocolo do Politburo” nº 2 (destinado a Shelepin)

29. O documento neste formulário do VKP(b) é atestado com um carimbo do PCUS.2525NT. “VKP(b)” (ВКП(б), em russo) significa “Partido Comunista de Toda a União (bolchevique)”, enquanto “PCUS” significa “Partido Comunista da União Soviética” (КПСС, em russo). O primeiro foi o nome que o Partido Comunista adotou de 1934 a 1952, passando a adotar o segundo a partir de então. Isso constitui um tal clímax da demência senil dos falsificadores que só isso já bastou para que a Corte Constitucional compreendesse que estava lidando com documentos forjados e para não associar o Partido Comunista da União Soviética ao assassinato de oficiais poloneses.

30. No “extrato para Shelepin”, a assinatura de Stalin, a data de envio, e o sobrenome do destinatário foram escritos com uma máquina de escrever diferente.

31. O extrato é datado de 27 de fevereiro de 1959, o que significaria que os poloneses continuavam nos campos até então, e que não houve decisão antes de 1959 no sentido de executá-los.

32. O Politburo destinou a determinação de criação da troika a Shelepin, mas dos membros originais da “troika” apenas Bashtakov ainda estava vivo.

33. Para atestar sua assinatura, em 1959 Stalin retornou de seu túmulo e apareceu em uma reunião do Politburo.

34. Aparentemente, o “extrato para Shelepin” foi concebido como uma cópia autenticada, mas na realidade não sofreu autenticação por nenhum funcionário do Comitê Central (CC) do PCUS. Os falsificadores não estavam a par do elementar, qual seja, que o carimbo redondo em qualquer instituição teria sido colocado sobre uma assinatura. O propósito da assinatura é atestar a autenticidade do carimbo.

35. No anverso do extrato há uma inscrição feita com tinta azul, “Dev. 27/II-59”, o que é uma violação grosseira das regras elementares de arquivamento de documentos, segundo as quais é extritamente proibido para os funcionários do arquivo fazer qualquer anotação nos documentos, exceto nos casos em que lhes é permitido escrever um novo número de página com um lápis comum no canto superior direito quando a pasta está sendo reencadernada.

36. No extrato foi apagado o nome do destinatário anterior, “Cam. Beria” e a data “5 de março de 1940”. No lugar, escreveram um novo sobrenome, “Cam. Shelepin”, e uma nova data, “27 de fevereiro de 1959”. Tais mudanças no texto também eram categoricamente proibidas pelas regras para arquivamento de documentos.

37. Da mesma maneira que no “extrato para Beria”, o “extrato para Shelepin” foi impresso num formulário que não era usado no trabalho usual do Politburo e carece da palavra-de-ordem “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”

Parte VII. A “carta de Shelepin” N-632-sh (Н-632-ш)

38. A “carta de Shelepin” foi enviada ao CC do PCUS pelo escritório da KGB, uma vez que tem um número de protocolo (N-632-sh; em russo, Н-632-ш) e uma data de 3 de março de 1959, concluindo-se disso que a falta de um registro de entrada no CC do PCUS em março de 1959 é um sinal de falsificação.

39. Na “carta” não há nenhuma anotação ou apontamento de qualquer secretário CC do PCUS – os falsários não foram capazes de pensar em nada, mas então parece que nenhum dos secretários no Comitê Central alguma vez viu a carta de Shelepin, o que é impossível quando se trata de uma carta do chefe da KGB.

40. Ao descrever a “decisão do Politburo” que estaria em frente à pessoa que escreveu a “carta de Shelepin”, essa pessoa escreveu “decisão do CC”, o que não poderia ocorrer – Shelepin definitivamente conhecia a diferença entre o Comitê Central e o Politburo.2626NT. Essa crítica faz bastante sentido, uma vez que o Comitê Central e a Comissão Política são instâncias distintas, sendo esta subordinada àquela. Uma decisão do Comitê Central prevalece sobre qualquer decisão do Politburo, e Shelepin, sendo membro proeminente do Partido Comunista, sabia disso.

41. Ao descrever a “decisão do Politburo do VKP(b)”, alguém escreveu “CC do PCUS”. No entanto, nem Shelepin, nem a pessoa que escreveu a carta autêntica que teria sido endereçada ao líder máximo do país poderia ter confundido o nome do partido em um documento tão importante.2727NT. Como informei na nota de tradução da crítica nº 29, o nome do partido fora alterado em 1952, de VKP(b) para PCUS.

42. Já na segunda frase da “carta de Shelepin” está escrito: “No todo, conforme decisão da troika especial do NKVD da URSS foram executados 21.857 indivíduos, dentre eles: no bosque de Katyn (região de Smolensk), 4.421 indivíduos2828NT. No “original” em russo há um erro de grafia: em vez de человек, está escrito челвек., no campo de Starobelsk, próximo a Kharkov, 3.820 indivíduos, no campo de Ostashkovsk (região de Kalinin), 6.311 indivíduos, e 7.305 indivíduos foram executados em outros campos e prisões da Ucrânia ocidental e de Belarus ocidental.”

Mas, com a ajuda de milhares de documentos encontrados, e que também fariam parte da versão que condenaria a Rússia, verifica-se que em abril e maio de 1940 os prisioneiros de guerra poloneses foram transportados dos campos em Starobelsk e Ostashkov e que eles então estavam vivos! Como poderia o Shelepin real, que estaria naquele mesmo momento examinando os documentos genuínos, escrever que os poloneses haviam sido mortos nos campos de Starobelsk e Ostashkov?

43. O Shelepin de verdade não poderia ter escrito que o campo de Starobelsk estaria localizado “próximo a Kharkov” ao mesmo tempo em que examinava os documentos verdadeiros. Porque nesses documentos o endereço real de Starobelsk era indicado; ele certamente não estava localizado no oblast de Kharkov, mas no de Voroshilovgrad – a quase 250 quilômetros de Kharkov!

Esses estão longe de ser todos os sinais que comprovam que os documentos do “pacote secreto nº 1” foram falsificados.

Os documentos falsos do “pacote secreto nº 1” estão todos estreitamente vinculados um com o outro pelo conteúdo dos mesmos. Isso significa que qualquer sinal de falsificação em um deles constitui evidência de que também os demais foram falsificados. Essa foi a razão pela qual a Corte Constitucional não apenas decidiu não depender dessa evidência, mas escolher não publicar tais documentos vexaminosos para a Rússia na compilação final.

O especialista em falsificações Kozlov afirma que 7 sinais de falsificação são mais que suficientes para revelar um documento forjado. Neste caso, estamos lidando com três textos históricos inter-relacionados que contém ao menos 43 sinais de falsificação!

Alguém pode expandir essa lista e adicionar mais sinais de falsificação, especificamente os seguintes:

44. As falsificações foram apresentadas pela primeira vez durante as reuniões da Corte Constitucional no “processo do PCUS” (uma investigação das atividades pregressas do Partido Comunista soviético) e a primeira versão da “carta de Beria” não apenas continha o número 794/b, como também a data “5 de março”. Durante essa reunião em 16 de outubro de 1992, Yu. M. Slobodkin (da defesa do PCUS) estava discutindo essa data com o membro da Corte Constitucional Zorkin e chamou a atenção da corte para o fato de que a carta de Beria era datada de 5 de março e que a reunião do Politburo teria tido lugar em 5 de março. Isso nunca havia acontecido antes, que uma carta fosse debatida no mesmo dia em que havia sido escrita. A discussão acerca daquela data permanece nos protocolos da Corte Constitucional e o fato de que essa data desapareceu nas versões posteriores das falsificações é mais um sinal de que os documentos são falsos.

45. Nenhum funcionário teria carimbado que a “carta de Shelepin” teria sido enviada em 1959 com um número de protocolo de entrada de 1965.2929NT. Na primeira página do documento está carimbado:
Sujeito a devolução
0680
-9 MAR 1965
6º SETOR
no Protocolo Geral do CC do PCUS

Na segunda página, escrito à mão junto do carimbo “9485”:
       9485     -59
20
     III      65
Na última página:
DOCUMENTO TRATADO
no 6º setor 16/03/65

Acresça-se que em 1965 nem o suposto autor, nem o suposto destinatário do documento estavam mais no exercício de seus cargos.
Disso se depreende que o funcionário do Protocolo Geral do Comitê Central reteve uma carta ultra-secreta ao secretário-geral do Comitê Central por 6 anos e 6 dias! E o funcionário que carimbou seria responsável por guardar ilegalmente uma carta secreta em lugar desconhecido. Quem poderia garantir que ele não teria entregue a carta à embaixada americana para ser fotografada? Por exemplo, Voznesensky, chefe do Gosplan e um dos mais altos funcionários do governo soviético, foi executado em 1950 acusado de ter eliminado documentos e de ter entregue outros a estados hostis. O funcionário do Comitê Central teria realmente induzido semelhante culpabilidade sobre si mesmo?

46. Ainda mais impressionante é o fato de que a carta contém outro carimbo com a data de 20 de março de 1965.3030NT. Como dito na nota anterior, trata-se de uma anotação junto do carimbo “9485”. Isso significa que a carta do antigo e há muito tempo afastado chefe da KGB Shelepin realmente foi encaminhada ao então aposentado Khrushchev , que então a leu e a encaminhou a outro departamento no Comitê Central, onde a carta foi recebida e registrada.3131NT. Eu precisaria analizar outros documentos para ter uma posição definitiva a esse respeito, mas não me parece que esse seja o caminho necessariamente inferido dos carimbos e anotações. Imagino que tais informações simplesmente indiquem que o documento teria passado por várias mãos dentro do 6º setor do CC do PCUS. Entretanto, impressiona como uma carta supostamente de 1959 só teria sido registrada em 1965, como todos os carimbos e anotações atestam!

47. A carta foi escrita a mão, mas não por Shelepin, e foi registrada no escritório da KGB e portanto enviada por correio comum. Se alguém acredita que essa carta é verdadeira, então isso significa que em 1959 só havia uma máquina de escrever em toda a KGB e que aquela máquina quebrou justamente diante de quem escreveu a carta.

48. Na “carta de Shelepin” se afirma que “os documentos sobre prisioneiros de guerra” em Starobelsk ainda existiam em 1959 e que estavam guardados no arquivo, mas esses documentos já haviam sido queimados em 25 de outubro de 1940, sobre o que o inspetor Pismennyj e o sargento da segurança do Estado Gydidey elaboraram um documento que até hoje está guardado nos arquivos.3232NT. Desconheço o documento, que procurarei, mas a informação sobre a destruição anterior dos documentos de Starobelsk é confirmada nesse outro documento, de 1990, bastante enviesado contra Beria e Merkulov.

49. A “carta de Shelepin” foi escrita com um forte sotaque polonês. Somente estrangeiros poderiam olhar para ela de maneira a acreditar que, se houvesse um Estado denominado União Soviética, então também deveria haver "órgãos soviéticos de poder”. Dentro da União Soviética, porém, ninguém se expressaria desse modo, visto que a palavra “soviete” se relacionava de maneira firme e clara ao poder legislativo da URSS – Soviete Supremo (Verkhovnyj sovet), Conselho Regional (oblastnoy sovet), conselho distrital (rayonnyj sovet). Mas, nesse caso não eram "órgãos soviéticos de poder”, e sim “orgãos do poder soviético”3333NT. O autor compara as expressões советские органы власти (“sovetskie organi vlasti”, no alfabeto latino, utilizada na “carta de Shelepin”) e Органы советской власти (“organi sovetskoy vlasti” – note a diferença entre “sovietskie” e “sovietskoy”, a primeira um adjetivo no plural, a segunda, no feminino singular). Escrito da primeira maneira, “soviético” é uma característica de "órgão”. Da segunda, é característica de “poder” (uma palavra feminina na língua russa)., e ainda assim “soviético” não se refere ao pertencimento a um Estado, mas compõe o nome de órgãos de poder específicos. (Por sinal, tais "órgãos do poder soviético” não tinham nada a ver com o caso de Katyn.) E o nome desses órgãos não seria confundido nem mesmo pelo cidadão comum, quanto mais por funcionários da KGB!3434NT. Os órgãos seriam o NKVD – Comissariado do Povo para Assuntos Internos, depois transformado em Ministério de Assuntos Internos – e os sovietes – Soviete Supremo etc. Seria como confundir o Ministério da Justiça com a Câmara dos Deputados… Dessa forma, realmente soa mal escrever como na “carta de Shelepin”: “Para os órgãos soviéticos […] de iniciativa dos órgãos soviéticos de poder”. As palavra parecem ter sua origem no exterior, da mesma maneira que “meu, seu, não compreendo” (uma expressão jocosa com que os russos descrevem alguém não muito versado na língua russa).

Kozlov disse que um dos sinais de falsificação dos documentos que ele examinara3535NT. Não se trata dos documentos aqui analisados. era o nome por extenso “Comitê Central do Partido Comunista”, em vez de “CC do CPSU”. Realmente, quem dentro do CC do CPSU não compreenderia o significado de CC do CPSU? Também neste caso: o Shelepin de verdade ou o funcionário da KGB nunca escreveriam "órgãos soviéticos de poder” quando seria mais exato usar um termo como "órgãos estatal-partidários” (partiyno-gosudarstvennyje organy).

Lista de abreviações

CC
Comitê Central – em russo: Tsentral’nyj komitet. Principal órgão dirigente do Partido Comunista.3636NT. Há uma imprecisão nessa descrição, pois o principal órgão do Partido Comunista era o Congresso, mas este apenas se reunia de tempos em tempos. Nos interstícios dessas reuniões, sim, o Comitê Central assumia o principal papel dirigente.
PCUS
Partido Comunista da União Soviética – em russo: KPSS, Kommunisticheskaya partiya Sovetskogo Soyuza, nome adotado pelo Partido Comunista Soviético de 1952 a 1991.
Gosplan
Comitê Estatal de Planejamento junto ao Conselho de Ministros. Em russo, Gosudarstvennyj planovyj komitet soveta ministrov.
GUZhDS
Administração Central para a Construção de Ferrovias. Em russo, Glavnoye upravleniye zheleznodorozhnogo stroitel’stva NKVD SSSR.
KGB
Comitê da Segurança do Estado. Em russo, Komitet gosudarstvennoy bezopasnosti. Anteriormente, GUGB NKVD, NKGB ou MGB.3737NT. No original, além de dar a sigla em inglês para a formação atual, Serviço de Segurança Federal, o autor fala em NKVD, o que é impreciso. As funções de segurança do Estado foram, sim, exercidas pelo NKVD, mas por sua divisão conhecida como GUGB (Administração Central de Segurança do Estado, Glavnoye upravleniye gosudarstvennoy bezopasnosti), que deu origem em 1941 ao NKGB (Comissariado do Povo da Segurança do Estado) e, em 1946, ao MGB (Ministério da Segurança do Estado).
NKVD
Comissariado do Povo para Assuntos Internos. Em russo, Narodnyj komissariat vnutrennikh del.
Sovnarkom
Conselho de Comissários do Povo, órgão superior do governo soviético. Em russo, Sovet narodnykh komissarov.3838NT. Nos documentos aqui referidos, usa-se a sigla SNK, com o mesmo significado.
Troika3939NT. Não se trata, na verdade, de uma sigla, mas o autor julgou importante explicar aqui essa palavra da língua russa.
Formações extrajudiciais que sentenciaram pessoas no período de 1935 a 1938. Normalmente em nível de oblast (região), eram formadas pelo chefe do NKVD na região em questão, um secretário do comitê regional e um promotor de justiça.
TsK
O mesmo que CC, isto é, Comitê Central. Usado junto com a sigla VKP(b).4040NT. Esta sigla não está presente no original. Foi utilizada nesta tradução para manter coerência com a sigla russa VKP(b), utilizada comumente em português, enquanto o original utiliza a sigla inglesa AUCP(b).
URSS
União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Em russo, Soyuz Sovetskikh Sotsialisticheskikh Respublik.
VKP(b)
Partido Comunista de Toda a União (bolchevique). Em russo, Vsesoyuznaya kommunisticheskaya partiya (bol’shevikov), nome adotado pelo Partido Comunista soviético de 1934 a 1952.

Notas:
1Nota do Tratudor (NT). Preferi usar o termo “secreto” em vez de “fechado”, ambos corretos, dada a natureza do objeto e a forma como ele é tratado.
2NT. Uso aqui a mesma grafia do texto original. A transliteração do alfabeto cirílico, usado na língua russa, para o latino é controversa.
3NT. Comissão Política do Partido Comunista da União Soviética (PCUS).
4NT. Interessante notar aqui como Gorbachev fala a respeito disso em sua autobiografia – Жизнь и реформыVida e Reforma, em português:
Os soviéticos, como oficialmente registrado no anúncio da [agência de notícias] TASS de 13 de abril de 1990, expressando profundo arrependimento com relação à tragédia de Katyn, declararam que parecia ser um dos graves crimes de Stálin.
No que concerne aos outros documentos relacionados à tragédia de Katyn, segundo me lembro estavam em duas pastas, as quais me foram mostradas por Boldin na véspera de minha visita à Polônia. Porém, naquelas pastas havia documentos corroborando a versão da comissão do acadêmico Burdenko [comissão soviética que em 1944 investigou o massacre e o atribuiu à Alemanha nazista]. Era uma coletânea de materiais, todos de acordo com aquela versão.

Ressalte-se que a conjunção adversativa utilizada no início da penúltima frase no texto original, но (pronuncia-se “nó”), é um tanto mais forte que um simples “mas”, ou “porém”. Não estaria muito errado traduzir aquela frase como "O problema era que naquelas pastas havia documentos corroborando a versão da comissão do acadêmico Burdenko [de que a Alemanha nazista havia cometido o massacre]”.
5NT. Informação corroborada pela lista com o conteúdo do “pacote secreto nº 1”, datada de 24/12/1991.
6NT. Não sei de onde procede a informação da existência de tal extrato, visto que o documento com a lista do conteúdo do “pacote secreto nº 1” não o menciona. Considerando, porém, o hábito de extrair dos documentos ultra-secretos apenas as informações essenciais, tal extrato deveria existir caso a suposta decisão de destruir os documentos relativos a Katyn tivesse sido tomada. Foi o que aconteceu, por exemplo, com a suposta decisão do Comitê Central do Partido Comunista soviético de formar uma junta supostamente destinada a condenar os poloneses à morte, e que está entre os documentos aqui contestados.
7NT. NKVD: sigla russa para Comissariado do Povo para Assuntos Internos. Troika é o conjunto de três em russo, e seu plural é troiki – contudo, foi mantida a forma usual dos textos em inglês ou português, “troikas”.
8NT. A palavra russa não é específica como os termos portugueses “memorando” e “ofício”. Trata-se, contudo, de um suposto ofício do chefe do NKVD para a Comissão Política do Partido Comunista de Toda a União (bolchevique) – VKP(b), na sigla em russo.
9NT. Atribuir vontades ou decisões não expressas pelas pessoas reais é bastante complicado para um historiador. Porém, trata-se de uma conclusão a respeito da natureza puramente burocrática do trabalho da “troika”. Agregue-se que outras conclusões podem ser retiradas da parte final do documento em questão quando exposto às evidências materiais de falsificação. Tais evidências são mencionadas adiante (indício nº 23), e o parecer do perito criminal Eduard Petrovitch Molokov a respeito das máquinas de escrever utilizadas será publicado aqui no Marxismo Online futuramente.
10NT. No original não aparece a expressão “foi violado”, sem a qual a frase fica sem sentido.
11NT. Nas críticas de 9 a 12, presume-se que se trataria de uma troika judicial. Contudo, como a última página pode ser a única autêntica em tal documento – v. a segunda nota anterior a esta e o indício nº 23 –, é possível que se tratasse de outra espécie de comissão, coincidentemente formada por três pessoas. Kobulov, responsável pela área econômica do NKVD, e os outros dois poderiam ter participado de uma junta para analisar outro tipo de decisão a ser tomada relativamente aos detentos – arestovanyi – e até mesmo aos prisioneiros de guerra – voyenoplenie –, mas não relacionada a matérias propriamente judiciais.
12NT. Nos documentos analisados por mim – além daqueles do “pacote secreto nº 1” –, a sigla utilizada é SNK.
13NT. Essa questão é sumamente interessante, especialmente sendo uma posição que teria determinado a atuação de Lavrenti Beria, visto que o mesmo assumiu a chefia do NKVD justamente nesse período – mais exatamente, 8 dias após a decisão do governo soviético e do Comitê Central do Partido Comunista. No dia seguinte a sua posse no cargo de comissário do povo para assuntos internos, Beria cancelou todas as ordens que embasavam o “grande expurgo”, e, em menos de um mês, determinou a anulação de todas as sentenças das troikas de que o acusado não tivesse sido intimado antes de 17 de novembro de 1938. Também é importante notar, como na crítica nº 14, que Yezhov, antecessor de Beria no NKVD e um dos responsáveis pelos expurgos, foi executado apenas um mês e um dia antes da suposta “carta de Beria” determinando que se fizesse algo semelhante ao que levou Ejov à “morte natural no paredão” – estaria Beria também procurando esse caminho? Acredito ser bastante improvável.
14NT. GUZhDS é a sigla de Administração Central para a Construção de Ferrovias, órgão do NKVD da URSS.
15NT. A “carta de Beria” seria datada de 5 de março desse mesmo ano, apenas um mês e um dia após a execução de Yezhov e seus auxiliares.
16NT. Acrescente-se que a cronologia exposta aqui e na terceira nota anterior a esta demonstra que Beria havia sido nomeado para o NKVD justamente para pôr fim às condenações e execuções em massa.
17NT. Quando os alemães invadiram a Polônia em agosto de 1939, todo o governo polonês fugiu para a Romênia, deixando um vazio de poder. Sem direção, o Estado polonês deixava de exitir enquanto tal, razão porque se diz “antiga Polônia”.
18NT. A “carta de Beria” diz:
Sugerir ao NKVD da URSS [ou seja, o “autor” da carta propõe sugerir a si mesmo]:
1. Com relação aos 14.700 indivíduos que se encontram nos campos para prisioneiros de guerra […]
2. e também aos detentos que se encontram nos presídios das regiões ocidentais da Ucrânia e Belarus, num total de 11.000 indivíduos [nesses presídos] […]
– considerar a aplicação especificamente da maior medida punitiva – execução.

Já na “carta de Shelepin” encontramos:
No todo, conforme decisão da troika especial do NKVD da URSS foram executados 21.857 indivíduos, dentre eles: no bosque de Katyn (região de Smolensk), 4.421 indivíduos*, no campo de Starobelsk, próximo a Kharkov, 3.820 indivíduos, no campo de Ostashkovsk (região de Kalinin), 6.311 indivíduos, e 7.305 indivíduos foram executados em outros campos e prisões da Ucrânia ocidental e de Belarus ocidental.
* O texto tido como original, com letras verdadeiramente desenhadas à mão, traz um erro de grafia: челвек, em vez de человек.
A inconsistência da versão de “culpa soviética” no caso fica ainda mais patente pelo fato de que nas valas comuns do bosque de Katyn (onde a “carta de Shelepin” afirma terem sido executados 4.421 indivíduos) foram encontrados cerca de 11.000 corpos.
19NT. Desconheço o documento relativo ao controle de protocolo. Certamente irei procurar e adicionar ao final desta postagem. É interessante esclarecer, porém, que na primeira página da carta consta no lugar da data o mês de março de 1940, mas sem informação de dia. Na última página, há uma anotação da data de 5 de março de 1940 feita com lápis azul. Já no arquivo eletrônico de Alexandr N. Yakovlev – o mesmo Yakovlev citado na crítica 1 – consta como informação de data “antes de 5 de março de 1940” (Ранее 05.03.1940). Não consta de onde Yakovlev ou seus funcionários retiraram tal informação. Contudo, uma pesquisa no mesmo arquivo revelará que o documento nº 641/b data de 22/02/1940, o nº 710/b (mencionado em outro documento) data de 26/02/1940, o nº 810/b data de 02/03/1940, o nº 949/b, de 04/03/1940, e, finalmente, o nº 953/b, de 11/03/1940. Ou seja, o número 749/b (a tal “carta de Beria”) está fora da ordem cronológica, pois teria necessariamente de ser anterior a 2 de março e posterior a 22 de fevereiro – a data tida como correta é 5 de março. Dessa maneira, é provável que a carta verdadeira realmente fosse datada de 29 de fevereiro de 1940, o que provoca outras inconsistências, conforme crítica nº 22. Por fim, o documento nº 949/b trata de reforçar o cumprimento da decisão do Partido Comunista e do Conselho de Comissários do Povo em 17 de novembro de 1938 que proibiu a existência de troikas ad hoc para o exercício de funções judiciais, decisão comentada nas críticas nº 11 e 12.
20NT. Não considero que essa seja a melhor das críticas, visto que não há nenhum impedimento para que as assinaturas tenham sido feitas com o papel nessa posição. Se for um caso único ou houver outros indícios relativos à falsificação das assinaturas (e considero que há, mas reservo para um momento futuro, onde poderei detalhar mais tal indício), então sim isso seria algo a mais para provar tal tese.
21NT. Vide nota no item 18.
22NT. O autor fala do quantitativo de generais, coronéis e tenentes-coronéis, na página 2 da suposta “carta”, folha 131 no arquivo, onde Beria informaria a quantidade de prisioneiros de guerra nos campos, conforme a ocupação ou a patente. A primeira linha da listagem informa: “Generais, coronéis e tenente-coronéis - 295”. A crítica procede, uma vez que as organizações militares – e o NKVD não estava alheio a isso, apesar de se tratar de um comissariado civil – distinguem rigidamente os oficiais generais dos demais.
23NT. O autor fala da série de correspondências de Soprunenko acerca da quantidade de prisioneiros de guerra do antigo exército polonês, da polícia etc. mantida nas províncias ocidentais da Ucrânia e de Belarus. Mais especificamente, este documento traz a informação detalhada sobre as patentes dos presos de guerra.
24NT. O parecer do perito Eduard Petrovitch Molokov está disponível em http://katyn.ru/index.php?go=Pages&in=view&id=946 e será publicado aqui futuramente, devidamente traduzido. A página 4 não faz qualquer menção à execução de qualquer pessoa, como bem diz a crítica nº 24.
25NT. “VKP(b)” (ВКП(б), em russo) significa “Partido Comunista de Toda a União (bolchevique)”, enquanto “PCUS” significa “Partido Comunista da União Soviética” (КПСС, em russo). O primeiro foi o nome que o Partido Comunista adotou de 1934 a 1952, passando a adotar o segundo a partir de então.
26NT. Essa crítica faz bastante sentido, uma vez que o Comitê Central e a Comissão Política são instâncias distintas, sendo esta subordinada àquela. Uma decisão do Comitê Central prevalece sobre qualquer decisão do Politburo, e Shelepin, sendo membro proeminente do Partido Comunista, sabia disso.
27NT. Como informei na nota de tradução da crítica nº 29, o nome do partido fora alterado em 1952, de VKP(b) para PCUS.
28NT. No “original” em russo há um erro de grafia: em vez de человек, está escrito челвек.
29NT. Na primeira página do documento está carimbado:
Sujeito a devolução
0680
-9 MAR 1965
6º SETOR
no Protocolo Geral do CC do PCUS

Na segunda página, escrito à mão junto do carimbo “9485”:
       9485     -59
20
     III      65
Na última página:
DOCUMENTO TRATADO
no 6º setor 16/03/65

Acresça-se que em 1965 nem o suposto autor, nem o suposto destinatário do documento estavam mais no exercício de seus cargos.
30NT. Como dito na nota anterior, trata-se de uma anotação junto do carimbo “9485”.
31NT. Eu precisaria analizar outros documentos para ter uma posição definitiva a esse respeito, mas não me parece que esse seja o caminho necessariamente inferido dos carimbos e anotações. Imagino que tais informações simplesmente indiquem que o documento teria passado por várias mãos dentro do 6º setor do CC do PCUS. Entretanto, impressiona como uma carta supostamente de 1959 só teria sido registrada em 1965, como todos os carimbos e anotações atestam!
32NT. Desconheço o documento, que procurarei, mas a informação sobre a destruição anterior dos documentos de Starobelsk é confirmada nesse outro documento, de 1990, bastante enviesado contra Beria e Merkulov.
33NT. O autor compara as expressões советские органы власти (“sovetskie organi vlasti”, no alfabeto latino, utilizada na “carta de Shelepin”) e Органы советской власти (“organi sovetskoy vlasti” – note a diferença entre “sovietskie” e “sovietskoy”, a primeira um adjetivo no plural, a segunda, no feminino singular). Escrito da primeira maneira, “soviético” é uma característica de "órgão”. Da segunda, é característica de “poder” (uma palavra feminina na língua russa).
34NT. Os órgãos seriam o NKVD – Comissariado do Povo para Assuntos Internos, depois transformado em Ministério de Assuntos Internos – e os sovietes – Soviete Supremo etc. Seria como confundir o Ministério da Justiça com a Câmara dos Deputados…
35NT. Não se trata dos documentos aqui analisados.
36NT. Há uma imprecisão nessa descrição, pois o principal órgão do Partido Comunista era o Congresso, mas este apenas se reunia de tempos em tempos. Nos interstícios dessas reuniões, sim, o Comitê Central assumia o principal papel dirigente.
37NT. No original, além de dar a sigla em inglês para a formação atual, Serviço de Segurança Federal, o autor fala em NKVD, o que é impreciso. As funções de segurança do Estado foram, sim, exercidas pelo NKVD, mas por sua divisão conhecida como GUGB (Administração Central de Segurança do Estado, Glavnoye upravleniye gosudarstvennoy bezopasnosti), que deu origem em 1941 ao NKGB (Comissariado do Povo da Segurança do Estado) e, em 1946, ao MGB (Ministério da Segurança do Estado).
38NT. Nos documentos aqui referidos, usa-se a sigla SNK, com o mesmo significado.
39NT. Não se trata, na verdade, de uma sigla, mas o autor julgou importante explicar aqui essa palavra da língua russa.
40NT. Esta sigla não está presente no original. Foi utilizada nesta tradução para manter coerência com a sigla russa VKP(b), utilizada comumente em português, enquanto o original utiliza a sigla inglesa AUCP(b).
Autor: Leandro Arndt
Temas: Alemanha, fascismo, socialismo, socialismo real - crítica, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS)
Séries: Katyn: verdade ocultada, URSS: história
Série Katyn: verdade ocultada
1. Katyn: 49 sinais de falsificação do “pacote secreto nº 1”
Série URSS: história
3. Stálin, um democrata: uma nova Constituição – a publicar
2. A fome na Ucrânia (1932-1933)
1. Katyn: 49 sinais de falsificação do “pacote secreto nº 1”

Comentários

Nenhum comentário enviado até agora

Deixe aqui seu comentário

Creative Commons by-nc-nd 2.5 BR
Marxismo Online, por Leandro Arndt, é licenciado segundo uma licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil.
Permissões além do escopo dessa licença podem ser obtidas por e-mail.

Marxismo Online usa Django.