A compreensão das partes que compõem o valor é fundamental para a compreensão de como se dá a reprodução ampliada do capital – é justamente na composição do valor que reside o segredo para se compreender como é possível que uma sociedade aumente seu capital. A importância dessa compreensão fica clara quando se sabe que os economistas liberais falharam justamente ao não ver o capital constante11v. LENIN, V. I. Desenvolvimento do capitalismo na Rússia: o processo de formação do mercado interno para a grande indústria. São Paulo: Abril Cultural, 1982. pp. 17-22..
Para compreender como se dá a reprodução do capital, é preciso entender como se divide a produção social – e ela se divide como o valor das mercadorias: uma seção (a que chamaremos seção I) produz as mercadorias que repõem o capital constante; a outra (seção II), as mercadorias de consumo final que compõem o capital variável e a mais-valia.
A reprodução do capital, portanto, se dá da seguinte forma: a seção I, ao produzir mercadorias, consome o capital constante produzido por ela mesma, e o capital variável produzido pela seção II; a seção II, o capital variável que ela mesma produziu, e o capital constante produzido pela outra. No entanto, desta forma não há aumento do capital social, mas apenas sua reprodução simples.
Para haver reprodução ampliada do capital, é preciso que parte da mais-valia se converta em capital constante, possibilitando que a nova produção ocorra numa escala maior. E isto revela um erro fundamental dos economistas liberais, que não conseguem explicar a ampliação da produção, senão pelo bordão “a produção cria sua própria demanda”.22v. Lênin, Desenvolvimento do capitalismo na Rússia, pp. 19-22; MIGLIOLI, J. Acumulação de capital e demanda efetiva. Parte I. O bordão é conhecido como “Lei de Say”, em referência ao economista clássico Jean Baptiste Say.
O valor de uma mercadoria após sua produção é maior do que o valor do capital constante e do capital variável empregados, porque foi agregado valor através do trabalho aplicado. A parte do valor que “sobra”, denominada mais-valia ou sobretrabalho, é apropriada pelo capitalista. No entanto, ele não a guarda para si, mas a investe novamente na produção, pois a concorrência dos demais capitalistas o obriga a modernizar a produção, produzindo mercadorias em maior quantidade e de menor valor unitário. Conseqüentemente, a produção capitalista não tem como fim o enriquecimento do próprio capitalista, mas é uma produção pela produção.
É no crescimento do capital constante que reside a possibilidade da reprodução ampliada do capital. Quando realiza sua produção (ou seja, vende-a no mercado), o capitalista adquire a capacidade de ampliá-la. Esta capacidade se transforma em necessidade com o avanço tecnológico e a diminuição do valor socialmente necessário para a produção de uma unidade de mercadoria. Para que possam competir uns com os outros, os capitalistas investem na modernização da produção. Ao se modernizar a produção, portanto, aumentam os custos com capital preexistente e diminui o valor agregado às mercadorias em cada etapa da produção. Aumenta a parte do capital constante, em detrimento do capital variável e da mais valia.
Concorre para isto o fato de que cada novo avanço da técnica leva ao surgimento de novos ramos industriais, elevando o número de etapas da produção social, alterando a proporção entre as duas seções da economia em favor daquela que produz capital constante.
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