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Capitalismo e mercado: as partes que compõem o valor

Publicado em 09 de Novembro de 2009
Categoria: teoria marxista
Correio Progressista

Como disse na seção anterior, o valor de uma mercadoria corresponde ao montante de trabalho socialmente necessário à sua produção. Por conseguinte, a especificidade do capitalismo como expressão máxima da divisão e da alienação do trabalho leva o valor de troca a ser composto por três partes: o capital preexistente, a parte do valor adicionado que corresponde aos custos de manutenção do trabalhador, e a parte deste valor que é alienada pelo capitalista.

A primeira parte é chamada de capital constante. Nela estão incluídas todas as formas de capital preexistente que devem ser adquiridas pelo capitalista para a efetivação da produção, como máquinas, instalações, equipamentos e matérias-primas. Esta parte do valor, a qual parece ser a mais simples de se entender, não é apenas basilar para o funcionamento do capitalismo, mas também muito mal compreendida, até mesmo ignorada pelos economistas burgueses. Isto fica patente na contabilidade social das economias capitalistas, que ignora completamente o valor dos insumos.

O que elas levam em conta é somente o capital adicionado, ou valor agregado, composto pelas outras duas partes do valor – o capital variável e a mais-valia. Estas duas partes, embora sejam opostas uma à outra, têm a mesma origem: o trabalho de transformação do capital constante em uma nova mercadoria.

A primeira parte desse valor agregado, o capital variável, é utilizada para pagar o trabalhador. A força de trabalho deste é uma mercadoria como qualquer outra, e seu valor corresponde da mesma forma ao montante de trabalho necessário para criá-la.

Para que haja trabalhadores, é preciso que haja: 1) preservação dos trabalhadores já existentes, dentro dos limites biológicos; 2) reposição dos trabalhadores mortos ou imprestáveis para o trabalho produtivo, bem como fabricação de novos trabalhadores; 3) adestramento dos trabalhadores para a lida com os meios de produção.

Porém, mesmo que o capital tente reduzir o trabalhador à mais terrível miséria, à mera existência biológica, há limites sociais e culturais para isto e que na verdade acabam por diferenciar a força de trabalho das demais mercadorias, pois tais limites podem variar mais facilmente que a quantidade de trabalho necessária para a produção das outras mercadorias.

Está explícita aí a contradição entre capital e trabalho, a qual tem a sua explicação na oposição entre capital variável e mais-valia. Entretanto, antes de tratar desta última parte do valor, é interessante voltar aos manuais de economia e mostrar como a economia política burguesa “entende” o capital variável.

Na verdade, fica caracterizada a falta de entendimento do valor, mesmo que ela concorde com a teoria do valor-trabalho.11Este é o nome dado às teorias que consideram o valor como o trabalho fixado numa mercadoria (a marxista e a ricardiana, principalmente). Marshall, por exemplo, reduz o valor à oferta e à procura; entretanto, como procurei demonstrar em o que é capitalismo, essa não é uma explicação convincente.Faço esta digressão apenas para mostrar o absurdo a que pode chegar a má compreensão do valor.

No livro de José Paschoal Rossetti está escrito – e esta visão faz parte da ideologia meritocrática capitalista – que “cada um de nós faz uma pequena parte do todo e recebe uma remuneração teoricamente compatível com a importância da atividade envolvida.”22ROSSETTI, J. P. Introdução à economia. São Paulo: Atlas, 1978. p. 197. Grifo meu.É preciso perguntar quem é mais importante: um lixeiro que ganha pouco e precisa de dois dias de greve para receber um aumento ou um professor universitário que ganha mais e precisa de uma greve que dure meses?

Ora, afirmar tal coisa é negar a própria natureza da força de trabalho sob o modo de produção capitalista, ou seja, que ela acrescenta valor à mercadoria sobre a qual é aplicada, e que é comprada pelo seu valor de troca, e não pelo seu valor de uso, o qual, como diz Marx, na produção capitalista é apenas um aspecto colateral33MARX, Karl. Teorías sobre el plusvalor. In: COLLETTI, L. (org.). El marxismo y el Derrumbe del Capitalismo. México: Siglo Veintiuno, 1978. p. 110. É interessante que esta é a mesma crítica que Marx faz a Ricardo (v. idem, pp. 109-110.), embora Rossetti baseie sua teoria do valor muito mais em Marshall (cf. Rossetti, op. cit., pp. 249-251.)..

No capitalismo, alguém vende sua força de trabalho pelo montante de capital-dinheiro necessário para mantê-la e reproduzi-la; em troca, o comprador ganha direito de usá-la pelas horas determinadas no contrato de trabalho ou na legislação. É justamente aí que se dá a produção de mais-valia, pois não é o produto do trabalho que está sendo vendido, e sim o usufruto desta força de trabalho.

Quando alguém compra a força de trabalho de outrem, ganha o direito de dispor dela como bem entender pelo tempo estipulado. Por conseguinte, pode acrescentar tanto valor quanto necessário a tantas unidades da mercadoria transformada quanto for tecnicamente possível, não precisando pagar ao operário todo o valor adicionado pelo seu trabalho, mas apenas o necessário para a manutenção do próprio trabalhador.

Pode-se partir para um exemplo numérico hipotético. Suponha-se que uma fábrica emprega um operário a R$100,00 por semana, tendo direito a usá-lo por 44 horas semanais. Se, neste período, o empregado acrescentar R$5,00 a 40 unidades da mercadoria transformada, o capitalista tem direito a vendê-las por um valor total de R$200,00 mais o capital constante utilizado, uma taxa de mais-valia de 100% (acrescentaram-se R$200,00, dos quais R$100,00 foram usados na manutenção do trabalhador, sobrando outros R$100,00 para o capitalista na forma de mais-valia).

O trabalho assalariado permite inclusive que se diminua o valor das mercadorias, mesmo que se aumentem os salários. Como o trabalhador não vende o produto do seu trabalho, e sim o usufruto de sua força de trabalho, um progresso técnico pode diminuir o trabalho necessário para transformar uma unidade da mercadoria, sem que o valor da força de trabalho aumente na mesma proporção – ele só aumenta na proporção necessária para que o operário possa utilizar as máquinas e equipamentos necessários à produção.

Notas:
1Este é o nome dado às teorias que consideram o valor como o trabalho fixado numa mercadoria (a marxista e a ricardiana, principalmente). Marshall, por exemplo, reduz o valor à oferta e à procura; entretanto, como procurei demonstrar em o que é capitalismo, essa não é uma explicação convincente.
2ROSSETTI, J. P. Introdução à economia. São Paulo: Atlas, 1978. p. 197. Grifo meu.
3MARX, Karl. Teorías sobre el plusvalor. In: COLLETTI, L. (org.). El marxismo y el Derrumbe del Capitalismo. México: Siglo Veintiuno, 1978. p. 110. É interessante que esta é a mesma crítica que Marx faz a Ricardo (v. idem, pp. 109-110.), embora Rossetti baseie sua teoria do valor muito mais em Marshall (cf. Rossetti, op. cit., pp. 249-251.).
Autor: Leandro Arndt
Temas: capitalismo, mais-valia, trabalho assalariado, valor
Séries: Capitalismo e mercado
Série Capitalismo e mercado
6. Capitalismo e mercado: os limites da reprodução ampliada - superprodução × subconsumo (final)
5. Capitalismo e mercado: os limites da reprodução ampliada - superprodução × subconsumo
4. Capitalismo e mercado: a reprodução ampliada do capital
3. Capitalismo e mercado: as partes que compõem o valor
2. Capitalismo e mercado: o valor das mercadorias
1. Capitalismo e mercado: o que é capitalismo?

2 Comentários

Erick Figueiredo comentou em 14 de Novembro de 2009 às 23:24

Muito instrutivo este estudo.

É interessante esta coisa de valor agregado. Outro dia meu chefe me mandou apontar as horas trabalhadas em um cliente até às 18 h e um outro apontamento a parir deste horário. Explicação: o valor cobrado do cliente é diferenciado, sem que o seja o valor das minhas horas trabalhadas... Muito interessante, não?

Marxismo Online comentou em 15 de Novembro de 2009 às 22:16

Sim, o estudo do valor das mercadorias é muito interessante, mas acho que o texto talvez pudesse ficar mais didático (afinal, é um capítulo da minha monografia de conclusão da graduação praticamente sem alterações).

No seu caso, me parece que ele não estava muito afim de pagar horas extras (apesar de devidas), mas queria receber do cliente todo o valor que você agregou ao produto ou serviço que ele vendia. Alguns chamam isso de super-exploração do trabalho, afinal eleva muito a taxa de mais valia em relação ao que seria, digamos, aceito pela sociedade e expresso no seu contrato de trabalho.

Eu, sinceramente, tenho vontade de representar à DRT toda vez que ouço falar de algo assim, mas sei que tenho poucos meios para combater todas as injustiças que encontro. O mínimo que posso fazer é escrever esses textos e ajudar as pessoas a compreenderem como a sociedade funciona...

Abraços,

Leandro

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