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Os fundamentos do marxismo segundo Lênin (parte I)

Publicado em 28 de Setembro de 2007
Categoria: teoria marxista
Correio Progressista

Em 1913, Lênin escreveu um artigo intitulado As Três Fontes e as Três Partes Consitutivas do Marxismo. Trata-se de leitura fundamental para quem queira iniciar o estudo do marxismo, pois demonstra o que vem a ser a doutrina de Marx, quais as suas bases, e qual o seu sentido histórico.

Primeiramente, diz Lênin que não há no marxismo “nada que se assemelhe ao ‘sectarismo’, no sentido de uma doutrina fechada em si mesma, petrificada, surgida à margem da estrada real do desenvolvimento da civilização mundial”. Este entendimento é fundamental. Nenhum dogmatismo sobreviveria à leitura atenta desse texto – e por isso o considero como uma arma imprescindível contra o esquerdismo, como o é contra as tendências de direita, contra a “convivência pacífica”11Tese esposada por Khruchëv, então presidente da URSS, que defendia a convivência mundial entre capitalismo e socialismo. Imaginava ele que o próprio desenvolvimento econômico poderia levar “naturalmente” ao socialismo. e o economicismo22Economicismo é a crença em que o desenvolvimento econômico por si só levaria ao socialismo, independente da ação de uma vanguarda revolucionária, ou mesmo de um sujeito histórico (classe, povo, Partido ou o que for) capaz de transformar radicalmente a sociedade. Nega, portanto, o caráter revolucionário do marxismo.. As fontes do marxismo de que fala o título, diz Lênin, “são, ao mesmo tempo, suas três partes constitutivas”, ou seja, não apenas o marxismo teve origem nisto que veremos, mas é mesmo constituído dessas três partes, sem a conjunção das quais não há que se falar que certo alguém siga tal doutrina social.

“A filosofia do marxismo é o materialismo”

O marxismo bebeu da fonte do materialismo que se disseminava pela Europa ao longo de sua história moderna, “especialmente em fins do século XVIII, em França”. Era este pensamento a negação do pensamento medieval, caracterizado pelo idealismo que ainda subsistia entre os conservadores da época. Porém, bebeu não apenas do materialismo, mas também da dialética hegeliana, formando assim o que chamamos de “materialismo dialético”. A dialética, diz Lênin, é “a doutrina do desenvolvimento na sua forma mais completa, mais profunda e isenta de unilateralidade, a doutrina da relatividade do conhecimento humano, que nos dá um reflexo da matéria em constante desenvolvimento” Isenta de unilateralidade, porque, como diz Marx, “O concreto é concreto por ser a soma de múltiplas determinações”33MARX, K. Preface and introduction to a contribution to the critique of  political economy. Peking: Foreign Languages, 1976. p. 31. Disponível em http://www.marx2mao.com/M&E/PI.html. – quer dizer, o concreto não depende unicamente da vontade de quem o examina, ou do que este considera mais relevante. E, tendo como base esse materialismo dialético, o materialismo histórico segundo Lênin é “uma teoria científica notavelmente integral e harmoniosa, que mostra como, em conseqüência do crescimento das forças produtivas, desenvolve-se de uma forma de vida social uma outra mais elevada, como, por exemplo, o capitalismo nasce do feudalismo.”

“Aprofundando e desenvolvendo o materialismo filosófico, Marx levou-o até o fim e estendeu-o do conhecimento da natureza até o conhecimento da sociedade humana.” Como diz Marx nos Manuscritos Econômico-Filosóficos44MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2001. p. 182., o homem é um ser natural e, como ser natural, não existe sem suas pulsões, que lhe são alheias, isto é, não existe apenas em si mesmo,

mas como ser natural e vivendo na natureza, sobre a qual age transformando-a. Voltando à “relatividade do conhecimento humano”, diz Lênin que este reflete a natureza que existe independente do homem, da mesma forma como o “conhecimento social do homem […] reflete o regime econômico da sociedade.” Aí está o materialismo marxista resumido no que há de mais básico: o homem é um ser natural e social, e como tal vive e conhece – não acima da natureza e da sociedade, mas dentro delas e agindo sobre elas.

Resumindo o materialismo marxista, Lênin diz que “A filosofia de Marx é o materialismo filosófico acabado, que deu à humanidade, à classe operária sobretudo, poderosos instrumentos de conhecimento.” Poderia acrescentar apenas como adendo: como diz Marx na Introdução da Contribuição à crítica da economia política55Marx, Preface…, p. 32-33., o método científico parte do real para o abstrato, retornando em seguida para o real; embora os críticos possam dizer que o marxismo parece muitas vezes contrariar seu próprio materialismo, partindo do abstrato para chegar às suas conclusões supostamente concretas, pois assim estas são expostas, “o método de partir do abstrato para o concreto é simplesmente o modo como o pensamento se apropria do concreto, reproduzindo-o como o concreto no pensamento. Mas de maneira alguma é o processo que origina o concreto em si. […] O sujeito real continua a existir independentemente fora da mente assim como antes”.

Notas:
1Tese esposada por Khruchëv, então presidente da URSS, que defendia a convivência mundial entre capitalismo e socialismo. Imaginava ele que o próprio desenvolvimento econômico poderia levar “naturalmente” ao socialismo.
2Economicismo é a crença em que o desenvolvimento econômico por si só levaria ao socialismo, independente da ação de uma vanguarda revolucionária, ou mesmo de um sujeito histórico (classe, povo, Partido ou o que for) capaz de transformar radicalmente a sociedade. Nega, portanto, o caráter revolucionário do marxismo.
3MARX, K. Preface and introduction to a contribution to the critique of  political economy. Peking: Foreign Languages, 1976. p. 31. Disponível em http://www.marx2mao.com/M&E/PI.html.
4MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2001. p. 182.
5Marx, Preface…, p. 32-33.
Autor: Leandro Arndt
Temas: epistemologia, marxismo, materialismo, Vladímir Ílitch Lênin
Séries: Fundamentos do marxismo
Série Fundamentos do marxismo
3. Os fundamentos do marxismo segundo Lênin (final)
2. Os fundamentos do marxismo segundo Lênin (parte II)
1. Os fundamentos do marxismo segundo Lênin (parte I)

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