Em 1913, Lênin escreveu um artigo intitulado As Três Fontes e as Três Partes Consitutivas do Marxismo. Trata-se de leitura fundamental para quem queira iniciar o estudo do marxismo, pois demonstra o que vem a ser a doutrina de Marx, quais as suas bases, e qual o seu sentido histórico.
Primeiramente, diz Lênin que não há no marxismo “nada que se assemelhe ao ‘sectarismo’, no sentido de uma doutrina fechada em si mesma, petrificada, surgida à margem da estrada real do desenvolvimento da civilização mundial”. Este entendimento é fundamental. Nenhum dogmatismo sobreviveria à leitura atenta desse texto – e por isso o considero como uma arma imprescindível contra o esquerdismo, como o é contra as tendências de direita, contra a “convivência pacífica”11Tese esposada por Khruchëv, então presidente da URSS, que defendia a convivência mundial entre capitalismo e socialismo. Imaginava ele que o próprio desenvolvimento econômico poderia levar “naturalmente” ao socialismo. e o economicismo22Economicismo é a crença em que o desenvolvimento econômico por si só levaria ao socialismo, independente da ação de uma vanguarda revolucionária, ou mesmo de um sujeito histórico (classe, povo, Partido ou o que for) capaz de transformar radicalmente a sociedade. Nega, portanto, o caráter revolucionário do marxismo.. As fontes do marxismo de que fala o título, diz Lênin, “são, ao mesmo tempo, suas três partes constitutivas”, ou seja, não apenas o marxismo teve origem nisto que veremos, mas é mesmo constituído dessas três partes, sem a conjunção das quais não há que se falar que certo alguém siga tal doutrina social.
O marxismo bebeu da fonte do materialismo que se disseminava pela Europa ao longo de sua história moderna, “especialmente em fins do século XVIII, em França”. Era este pensamento a negação do pensamento medieval, caracterizado pelo idealismo que ainda subsistia entre os conservadores da época. Porém, bebeu não apenas do materialismo, mas também da dialética hegeliana, formando assim o que chamamos de “materialismo dialético”. A dialética, diz Lênin, é “a doutrina do desenvolvimento na sua forma mais completa, mais profunda e isenta de unilateralidade, a doutrina da relatividade do conhecimento humano, que nos dá um reflexo da matéria em constante desenvolvimento” Isenta de unilateralidade, porque, como diz Marx, “O concreto é concreto por ser a soma de múltiplas determinações”33MARX, K. Preface and introduction to a contribution to the critique of political economy. Peking: Foreign Languages, 1976. p. 31. Disponível em http://www.marx2mao.com/M&E/PI.html. – quer dizer, o concreto não depende unicamente da vontade de quem o examina, ou do que este considera mais relevante. E, tendo como base esse materialismo dialético, o materialismo histórico segundo Lênin é “uma teoria científica notavelmente integral e harmoniosa, que mostra como, em conseqüência do crescimento das forças produtivas, desenvolve-se de uma forma de vida social uma outra mais elevada, como, por exemplo, o capitalismo nasce do feudalismo.”
“Aprofundando e desenvolvendo o materialismo filosófico, Marx levou-o até o fim e estendeu-o do conhecimento da natureza até o conhecimento da sociedade humana.” Como diz Marx nos Manuscritos Econômico-Filosóficos44MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos. São Paulo: Martin Claret, 2001. p. 182., o homem é um ser natural e, como ser natural, não existe sem suas pulsões, que lhe são alheias, isto é, não existe apenas em si mesmo,
mas como ser natural e vivendo na natureza, sobre a qual age transformando-a. Voltando à “relatividade do conhecimento humano”, diz Lênin que este reflete a natureza que existe independente do homem, da mesma forma como o “conhecimento social do homem […] reflete o regime econômico da sociedade.” Aí está o materialismo marxista resumido no que há de mais básico: o homem é um ser natural e social, e como tal vive e conhece – não acima da natureza e da sociedade, mas dentro delas e agindo sobre elas.
Resumindo o materialismo marxista, Lênin diz que “A filosofia de Marx é o materialismo filosófico acabado, que deu à humanidade, à classe operária sobretudo, poderosos instrumentos de conhecimento.” Poderia acrescentar apenas como adendo: como diz Marx na Introdução da Contribuição à crítica da economia política55Marx, Preface…, p. 32-33., o método científico parte do real para o abstrato, retornando em seguida para o real; embora os críticos possam dizer que o marxismo parece muitas vezes contrariar seu próprio materialismo, partindo do abstrato para chegar às suas conclusões supostamente concretas, pois assim estas são expostas, “o método de partir do abstrato para o concreto é simplesmente o modo como o pensamento se apropria do concreto, reproduzindo-o como o concreto no pensamento. Mas de maneira alguma é o processo que origina o concreto em si. […] O sujeito real continua a existir independentemente fora da mente assim como antes”.
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