Após a verificação das bases materiais da existência humana, ou, conforme diz Lênin, “Depois de ter verificado que o regime econômico constitui a base sobre a qual se ergue a superestrutura política”, Karl Marx se dedicou igualmente ao estudo desse mesmo regime econômico, mais propriamente, do regime econômico de sua época, o capitalismo11Lênin posteriormente identificou a existência de duas fases do capitalismo: a fase industrial, caracterizada pela exportação de mercadorias, e a fase imperialista, caracterizada pela exportação de capital. Marx viveu naquela primeira fase, o que seguramente tem implicações na política revolucionária que ele defendeu em diferentes ocasiões. Convém lembrar, no entanto, que a forma de circulação do capital não altera a essência do capitalismo, qual seja, a mais-valia. Para mais informações sobre a fase imperialista e sua distinção da fase anterior, recomendo a leitura Imperialismo, fase superior do capitalismo, de Lênin, disponível em diversas edições..
Certamente Marx não partiu do nada, ao contrário, partiu de onde tinham parado os economistas clássicos, como Adam Smith e David Ricardo. Mais exatamente, Marx levou até o fim a teoria do valor-trabalho – ou seja, a teoria de que o valor das mercadorias “é determinado pela quantidade de tempo de trabalho socialmente necessário investido na sua produção.”22Convém nesse ponto dizer que “mercadoria” é o resultado da produção para o mercado, e a partir de outras mercadorias. Em outras palavras, mercadoria é uma das características essenciais do capitalismo, pois nada mais é que o produto do trabalho assalariado – este mesmo uma mercadoria – agindo sobre outras mercadorias (insumos, máquinas, ferramentas…).
“Onde os economistas burgueses viam relações entre objetos […], Marx descobriu relações entre pessoas.” A “relação entre pessoas” característica do capitalismo é o trabalho assalariado, que só existe quando o trabalhador é despido dos meios de produção e passa a ter que vender seu único bem, a força de trabalho, para poder sobreviver. Torna-se assim a própria força de trabalho uma mercadoria, a qual se mantém por meio de outras mercadorias, produzidas elas mesmas pela ação da força de trabalho sobre outras mercadorias, tornando possível a existência de um elemento comum a todas elas, o próprio trabalho, que, como dito acima, determina o valor.
O capital é justamente a expressão dessa força de trabalho tornada mercadoria. Capital é trabalho acumulado. “O operário assalariado vende a sua força de trabalho ao proprietário de terra, das fábricas, dos instrumentos de trabalho. O operário emprega uma parte do dia de trabalho para cobrir o custo do seu sustento e de sua família (salário); durante a outra parte do dia, trabalha gratuitamente, criando para o capitalista a mais-valia, fonte dos lucros, fonte da riqueza da classe capitalista.”33É importante acrescentar que, apesar dessa simplificação feita por Lênin no texto em questão, é mais adequado afirmar que o trabalhador trabalha parte do tempo para pagar o próprio sustento, parte dele para pagar as demais mercadorias a partir das quais se produz a mercadoria em questão, e a outra parte do tempo para produzir a mais-valia. Sugiro a leitura de Salário, preço e lucro, de Karl Marx, como introdução ao estudo do valor e da mais-valia. Outro texto interessante é o primeiro capítulo do Desenvolvimento do capitalismo na Rússia, de Lênin.
O desenvolvimento do capitalismo arruína os pequenos produtores na cidade e no campo. “Esmagando a pequena produção, o capital faz aumentar a produtividade do trabalho e cria uma situação de monopólio para os consórcios dos grandes capitalistas. A própria produção vai adquirindo cada vez mais um caráter social – centenas de milhares e milhões de operários são reunidos num organismo econômico coordenado – enquanto um punhado de capitalistas se apropria do produto do trabalho comum. Crescem a anarquia da produção, as crises, a corrida louca aos mercados, a escassez de meios de subsistência para as massas da população.”
“Ao fazer aumentar a dependência dos operários relativamente ao capital, o regime capitalista cria a grande força do trabalho unido.” O capitalismo cria a classe operária, o proletariado. Cria, portanto, o principal agente de sua própria destruição, pois faz surgir uma grande classe de produtores alienados da produção, despidos de qualquer meio de se manter, exceto a venda de sua própria força de trabalho. O proletariado assim surgido se organiza e evolui historicamente no seio desse modo de produção, podendo chegar, no curso dessa história, a empreender a derrubada do regime econômico que o criou.44Importante evitar, porém, cair na crença de que o próprio desenvolvimento econômico derrubaria o capitalismo, como tratado na parte primeira (nota 2). Tal crença na verdade prescinde de uma classe revolucionária e apenas enfraquece a luta dos trabalhadores, que ficariam parados esperando o socialismo cair do céu. O marxismo não existe sem a luta revolucionária, como se verá na terceira parte deste texto.“O capitalismo venceu no mundo inteiro, mas esta vitória não é mais do que o prelúdio do triunfo do trabalho sobre o capital.”
(Continua)
Notas:
Marxismo Online, por Leandro Arndt, é licenciado segundo uma licença Creative Commons Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil.
Permissões além do escopo dessa licença podem ser obtidas por e-mail.
Marxismo Online usa Django.