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Postagens de agosto 2012

O cristão na civilização do mal-estar

Ontem à noite na minha turma do Curso Superior de Teologia houve uma interessante discussão sobre o papel do cristão (e do teólogo) num mundo dominado pela permanente necessidade. O debate foi baseado na parte I do livro Teologia e outros saberes, de João Décio Passos. É claro que a discussão se prolongou, não caberia toda aqui, mas seleciono algumas questões que considero importantes.

A civilização do mal-estar

Um dos temas do debate foi a constante necessidade de consumo ou domínio criada pela sociedade atual. Não apenas pelo ritmo da inovação tecnológica, que por si não é ruim, mas pela necessidade imprimida às pessoas de sempre ter o mais novo, sempre ter o controle sobre tudo, sempre não ter carência alguma. Isso tudo gerado necessariamente num contexto em que o ser humano se imaginou capaz de tudo, inclusive de satisfazer todas as suas necessidades.

O primeiro passo para contornar o problema da impotência, que gera depressão e estresse, é reconhecer a capacidade natural do ser humano de dominar a natureza, mas também sua incapacidade de ter o pleno controle exigido hoje em dia. Mais que nunca, o homem pergunta: “de onde me virá o socorro?” Mais que nunca é hora de responder: “o meu socorro virá do Senhor, criador do céu e da terra”. (Sl 120,1-2)

O raciocínio é simples: o homem é capaz de abarcar a criação? Talvez algum positivista no século XIX respondesse que sim. Contudo, a ciência evoluiu muito desde então, mas continua sempre à mesma distância de compreender tudo o que existe. O socorro só pode vir de Deus, o qual é infinitamente maior que a criação. Quando a razão não dá a resposta, é hora de se deixar levar pela fé, que não lhe é oposta, mas complementar. “Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio” (Beato João Paulo II, Fides et ratio). Santa Tereza Benedita da Cruz (Dr.ª Edith Stein) já dizia: “quem busca a verdade, busca Deus, seja ou não consciente disso”. Para São João da Cruz, é a fé que ilumina o ser humano quando a razão não lhe dá a luz (Subida do Monte Carmelo, s. 2).

O papel do cristão

Muito bem, e como o cristão deve agir? Parando. Na extrema velocidade em que vivemos, na rápida sucessão de necessidades, a satisfação só pode ser atingida parando. E, para parar, precisamos estar em movimento. Disse então que deveríamos voltar às origens, ao tempo da perseguição romana, quando os cristãos eram perseguidos não por não se inserirem na civilização romana, mas por não se curvarem ao imperador – apenas Deus deve ser cultuado.

Os avanços da ciência são bem vindos. Os confortos trazidos pela tecnologia fazem parte da nossa cultura e não há como retroceder – nem seria benéfico. Contudo, é preciso parar e entregar-se a Deus. Buscar satisfação dentro de si próprio, como se um vazio pudesse preencher o próprio vazio, semelhante a um copo enchendo-se a si mesmo com o próprio copo, é estar fadado à incapacidade de ser feliz.

Nosso testemunho deve ser o de poder sair do ciclo da necessidade e chegar ao ciclo da satisfação: Deus se entrega e se une a nós, que nos entregamos e nos unimos a Deus, em atos e em oração. Vivermos no mundo, mesmo não sendo do mundo (Jo 17,13ss). Assim poderemos ser luz para iluminar esse mundo tenebroso (Mt 5,14-16; Ef 6,12).

Obrigado, Pai Eterno!

Obrigado, nosso Pai, que nos adotastes na encarnação do Vosso Filho!

Obrigado porque cuidais de nós, mesmo quando não sabemos de que precisamos e mesmo quando não reconhecemos Vossa misericórdia.

Obrigado, Senhor, por serdes o que sois. Continuai a ser o que fostes, o que sois, e o que sempre sereis!

Amém!

A possibilidade histórica do diálogo marxismo-cristianismo

Quando se fala em diálogo, pressupõe-se a existência de duas partes, muitas vezes discordantes. É o caso do possível diálogo marxismo-cristianismo – há diferenças fundamentais entre um e outro, especialmente quando pensamos no “marxismo como era concebido“, o qual será sempre uma referência quando nos dispusermos a analisar as possibilidades de alteração nessa relação.

O marxismo, porém, já atravessou muitas mudanças, inclusive para poder explicar a sociedade como se propõe. A primeira grande mudança foi o desenvolvimento do conceito de “imperialismo” por Vladímir Ílitch Lênin, na época da I Guerra Mundial. Depois, vemos a adoção, em diferentes países, de diferentes táticas revolucionárias, da mera tomada de poder (seguida da resistência ferrenha dos antigos poderosos e da intromissão das potências que haviam lutado na I Guerra), como na Rússia, à guerra popular prolongada chinesa e o foquismo de raiz cubana. Todas essas vertentes disputaram ferrenhamente a primazia entre os marxistas como “caminho único” para o socialismo. Com a crise do socialismo a partir da queda dos regimes do leste europeu, esse cenário se alterou profundamente, a ponto de o chamado “marxismo do século XXI” ser necessariamente vinculado às realidades nacionais, seja no Brasil, na Venezuela ou em outros países em que esse termo foi adotado.

São essas mudanças que me animam à possibilidade de dialogar, como sugerido pelo papa Bento XVI em sua viagem a Cuba. Lá mesmo encontramos diversas mudanças, como um Estado que deixou de ser oficialmente ateu e mantém boas relações com a Igreja Católica. Na China, país com muitos problemas históricos relativos ao que – sobretudo no período maoista – era visto como de origem externa, temos relações com o Vaticano que ora avançam, ora regridem, mas que, numa perspectiva de longo prazo, têm melhorado. Tudo isso aponta para um afrouxamento do antigo ateísmo.

Aqui no Brasil, o PCdoB – partido que já em 1945 defendia a liberdade religiosa – coloca em sua ficha de filiação a opção de o futuro militante declarar que atua em “movimento religioso”, considerado uma expressão da sociedade.

Vejo isso tudo com otimismo. Sei que há muitas resistências a mudanças no marxismo, especialmente da parte dos pequenos grupos sectários. Sei também que há muita negatividade de ambos os lados em relação a esse diálogo. E sei, por fim, que há ainda muitos ateus militantes entre os marxistas. Contudo, uma das qualidades do método marxista é a sua historicidade, e posso tranqüilamente dizer que também a doutrina social da Igreja partilha do conhecimento da historicidade das coisas de que trata. Ou seja, há de ambos os lados o reconhecimento de que a humanidade não é estática, fadada a permanecer sempre nos velhos antagonismos. E a crise do socialismo abriu o espaço necessário às mudanças de que o marxismo tanto necessita, especialmente a abertura à transcendência do homem, raiz de seus problemas.