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Das laudes na memória de São Francisco de Assis

Leitura breve Rm 12,1-2

Pela misericórdia de Deus, eu vos exorto, irmãos, a vos oferecerdes em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus: Este é o vosso culto espiritual. Não vos conformeis com o mundo, mas transformai-vos, renovando vossa maneira de pensar e de julgar, para que possais distinguir o que é da vontade de Deus, isto é, o que é bom, o que lhe agrada, o que é perfeito.

O papa jesuíta

Papa Francisco. Foto: Korea.net / Serviço Coreano de Informação e Cultura (Jeon Han)

Tanto criticam o papa Francisco! O assunto da vez é o instrumento de trabalho do Sínodo sobre a evangelização na Amazônia. Eu li esse instrumento de trabalho, e não vi nenhum erro. Aliás, nem sei porque tanto alvoroço, pois é apenas o instrumento de trabalho do Sínodo, e todo mundo que tiver estudado teologia fundamental sabe qual o lugar de um instrumentum laboris na doutrina da Igreja (e é um lugar muito baixo na hierarquia de documentos do Magistério). O Sínodo pode simplesmente nem tocar em pontos que hoje são polêmicos, mas outros que nem haviam sido imaginados podem surgir. Se eu achei que algumas formulações poderiam ser diferentes, talvez aprimoradas? É claro que achei. É um documento feito para ser debatido, não para causar celeuma.

Mas, acima de tudo, tenho fé na promessa de Jesus Cristo a São Pedro: “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18). E o Pedro de hoje, o papa Francisco, está sendo um papa jesuíta, porque os cardeais elegeram um jesuíta no último conclave. Eu tive oportunidade de conhecer os jesuítas na faculdade de História, na faculdade de Teologia e nas pedras de São Miguel das Missões. Uma bela história de missão, de ir aonde ninguém ia para pregar o Evangelho. Tão bela que despertou a ira dos poderes deste mundo, o que fez a Companhia de Jesus ser expulsa de vários países, inclusive do que viria a ser o Brasil (a indústria foi expulsa daqui na mesma época). Francisco, o papa que buscaram no “fim do mundo”, está sendo esse jesuíta, que vai à África, à Ásia, à Amazônia, aonde o Evangelho precisa ser pregado. É um papa que se faz pobre com os pobres, sofrido com os sofridos – como o próprio Cristo. Quão belo vigário Jesus Cristo escolheu para guiar sua Igreja neste mundo!

A unidade com o papa e os bispos, proteção contra o cisma

Ultimamente tenho recebido mensagens de Whatsapp críticas ao sínodo sobre a Amazônia, algumas delas divulgando palavras dos cardeais Burke e Brandmüller, palavras que infelizmente colocam lenha na fogueira cismática – algumas até com a pretensão de prevenir contra o cisma. Por favor, não ataquem a Igreja, pois eu a amo e vou defendê-la. Ela é a única certeza que podemos ter de estarmos com Jesus Cristo: estamos com ele na união visível por meio do papa e do bispo diocesano. Fora disso, não temos onde nos agarrar para alcançar a Salvação. O texto a seguir, de uma mensagem que enviei hoje, é a síntese do que tenho dito em um grupo de Whatsapp de Brasília:

Não quero estender a polêmica, mas acho que seria bom ilustrar o que quis dizer uns dias atrás sobre a atitude do cardeal Burke – acaba servindo para muitas outras coisas que a gente lê por aí. Respeito muito o reverendíssimo cardeal, reconheço o seu conhecimento teológico e dedicação à Igreja. Não é à toa que foi feito cardeal. Mas, as coisas têm que ser colocadas em seus devidos lugares – para começar, reconhecendo que não sou ninguém para julgá-lo, e, ao mesmo tempo, esclarecendo o que penso.

Na época da polêmica que o cardeal Burke e um punhado de colegas seus criaram acerca das condições para a comunhão eucarística, chegando a divulgar uma carta que o papa não quis responder (e com razão, como me disse um teólogo), eu era aluno desse teólogo, membro da Comissão Teológica Internacional, o qual, por coincidência, era amigo de Burke. A disciplina era justamente Eucaristia. O que ele me falou, conhecendo o cardeal Burke pessoalmente? Que ele é muito zeloso pela doutrina, mas que não estava se comunicando adequadamente, criando uma celeuma desnecessária e contraproducente. Acaba que esses pronunciamentos, que parecem tão zelosos, colocam lenha na fogueira cismática.

Sobre o instrumentum laboris do próximo sínodo, assim como qualquer estudante de Teologia Fundamental, eles mesmos sabem que se trata de um documento de muito pouca importância doutrinária, e que o sínodo provavelmente nem tocará em muitos pontos polêmicos e se concentrará no que realmente interessa. Não vale a pena criar tanta polêmica por um documento assim.

Como disse o papa Bento XVI, a caridade e a verdade sempre devem caminhar juntas. Entretanto, há até quem oponha doutrina e pastoral. Contudo, pastoral é doutrina. Jesus Cristo, que é o Bom Pastor, disse a São Pedro: apascenta o meu rebanho. E o mesmo Cristo garantiu a São Pedro que o mal jamais triunfaria sobre a Igreja que seria erguida sobre essa pedra. Se estou com Pedro (chame-se ele Pio X, João Paulo II, Bento XVI, Francisco – não importa), se estou com o papa estou com a Igreja, e, se estou com a Igreja, sou um membro do Corpo de Cristo, no qual fui enxertado pelo Batismo. Fora disso não há salvação.

Portanto, não tenho medo de estar com o papa Francisco, o que só pode acontecer estando em comunhão com meu arcebispo, D. Sérgio. Eles, aliás, e não eu, receberam de Deus essa incumbência de serem pastores do seu rebanho. Para isso, contam com o auxílio especial do Espírito Santo. Não eu.

Vale recordar a carta Dilectionis vestrae (DH 468), do papa Pelágio II, cerca do ano 585:

Se bem seja claro, pela palavra do próprio Senhor no santo Evangelho, onde está o fundamento da Igreja, ouçamos todavia o que determinou o bem-aventurado Agostinho, lembrado deste mesmo dito do Senhor. A Igreja de Deus, disse, foi fundada sobre aqueles de quem se reconheceu que presidem as Sés Apostólicas [dioceses] por sucessão dos prepostos; e quem quer que se tenha afastado da comunhão ou da autoridade das mesmas Sés [afastando-se do bispo] demonstra estar no cisma. E, depois de outras afirmações, diz: ‘Posto fora, serás morto também para o nome de Cristo. Entre os membros de Cristo, sofre por Cristo, aderindo ao corpo; combate pela Cabeça’.

Mas também o bem-aventurado Cipriano diz entre outras coisas: ‘O início parte da unidade, e o primado foi dado a Pedro, para que a Igreja e cátedra de Cristo se mostre una’; e pastores são todos, mas o rebanho é mostrado como um só, devendo ser levado ao pasto pelos Apóstolos com unânime acordo.

E pouco depois: ‘Quem não respeita esta unidade da Igreja acredita que respeita a fé? Quem abandona a cátedra de Pedro, sobre o qual foi fundada a Igreja, e se lhe opõe, pode confiar de estar na Igreja?’

Não podem parmanecer com Deus aqueles que não quiseram viver em unanimidade na Igreja de Deus: e mesmo se arderem levados a ferro e fogo ou derem a própria vida jogados aos animais ferozes, tal coisa não será a coroa da fé, mas o castigo da infidelidade; nem será a chegada gloriosa, mas a perdição desesperada. Uma tal pessoa pode ser morta, ser coroada não pode.’

‘O crime do cisma é pior que o daqueles que sacrificaram aos deuses; estes, de fato, uma vez constituídos penitentes por seu crime, suplicam a Deus com pleníssimas satisfações. Lá se procura e se pede à Igreja, aqui se faz oposição à Igreja. Lá quem caiu causou dano somente a si, aqui quem tenta fazer um cisma engana a muitos, levando-os consigo. Lá há o dano de uma só alma, aqui, perigo para muitos. O penitente compreende que decerto pecou, lamenta e chora, o outro, inchando-se de seu pecado e comprazendo-se nas próprias culpas, separa os filhos da mãe, subleva as ovelhas contra o pastor, destroi os sacramentos de Deus e, enquanto o que caiu pecou uma só vez, este peca todo dia. Por fim, aquele que caiu, conseguindo mais tarde o martírio, pode receber as promessas do reino; mas este, se for morto fora da Igreja, não pode chegar aos prêmios da Igreja’.

Estejamos, portanto, com D. Sérgio [ou o arcebispo de cada um] e com o Papa Francisco para a nossa salvação!

As autoridades deste mundo

Ontem recebi uma mensagem de WhatsApp que afirmava que Bolsonaro foi “escolhido pelo Céu”. “Não terias poder nenhum sobre mim, se não te fosse dado do alto”, disse Jesus a Pôncio Pilatos (Jo 19,11b). Qual a relação entre as autoridades deste mundo e Deus?

Busto do imperador Domiciano exposto no Museu do Louvre. (Foto: I, Salko)

Escutai, reis e entendei!
Instruí-vos, juízes dos confins da terra!
Prestai atenção, vós que dominais a multidão
e vos orgulhais das multidões dos povos!
O domínio vos vem do Senhor
e o poder, do Altíssimo,
que examinará vossas obras,
perscrutará vossos desígnios.
Se, pois, sendo servos de seu reino,
não governastes retamente,
não observastes a lei
nem seguistes a vontade de Deus,
ele cairá sobre vós, terrível, repentino.
Um julgamento implacável se exerce
contra os altamente colocados.
Ao pequeno, por piedade, se perdoa,
mas os poderosos serão provados com rigor.
Pois o Senhor do universo a ninguém teme.
Não se deixa impressionar pela grandeza;
pequenos e grandes, foi ele quem os fez:
com todos se preocupa por igual,
mas aos poderosos reserva um julgamento severo.
A vós, portanto, soberanos, me dirijo,
para que aprendais a ser sábios e não pequeis;
santos serão os que santamente observam as coisas santas,
e aqueles que se deixam instruir encontrarão do que se justificar.
Ansiai, pois, por minhas palavras,
desejai-as e recebereis a instrução. (Sb 6,1-11)

É um julgamento severo, portanto, que espera os governantes. Quem, por herança ou eleição, por escolha do povo, dos pares ou de outra potestade, se achar digno de exercer autoridade sobre os demais homens e mulheres, este será julgado pelo que fizer, de acordo com a grandeza que escolheu – e o domínio com que Deus assentiu. Não importa se é Lula, Dilma, Temer ou Bolsonaro. Não importa se foi uma escolha justa ou injusta, livre ou manipulada. Não importa nem sequer se é um democrata ou um tirano. Devemos rezar com São Clemente de Roma, o terceiro papa após Pedro, que ainda quando o apóstolo São João era vivo, sob o jugo do tirano Domiciano escreveu:

Concede concórdia e paz
a nós e a todos os habitantes da terra,
assim como a destes aos nossos pais,
quando te invocaram santamente na fé e na verdade.
Torna-nos submissos ao teu nome onipotente e virtuosíssimo,
e aos nossos chefes
e aos que nos governam sobre a terra.

Tu, Senhor, lhes deste o poder da realeza,
pela tua força, magnífica e indizível
para que nós, conhecendo a glória e a honra que lhes foi dada,
obedecêssemos a eles,
sem nos opor à tua vontade.
Dá lhes, Senhor, a saúde,
a paz, a concórdia e a constância,
para que exerçam com segurança a soberania que lhes deste.
Tu, Senhor celeste, rei dos séculos,
concede aos filhos dos homens
glória, honra e poder sobre as coisas da terra.
Dirige, Senhor, as decisões deles,
conforme o que é bom e agradável a ti,
para que, exercendo com paz, mansidão e piedade,
o poder que lhes foi dado por ti,
possam alcançar de ti a misericórdia. (Aos coríntios, 60,4-61,2)

Dossiê: Igreja Católica firme pela democracia

Esse dossiê foi publicado originalmente no Visão Católica. O momento vivido pelo Brasil hoje exige que os católicos conheçam a orientação da Igreja, governada pelos bispos conforme a determinação divina — são os bispos que devem nos guiar, como pastores do rebanho divino, rumo ao céu, e que recebem o especial auxílio divino para guardar íntegro o depósito da fé. Se não ouvimos os bispos, como ouviremos a Palavra de Deus?

Mesmo que alguém divirja do pensamento geral do episcopado brasileiro, expresso pela CNBB e explicado pelas autoridades aqui citadas, peço gentilmente que mantenha o respeito e procure, no silêncio do coração, compreender as razões de nossos pastores. O papel dos bispos não é agradar os fiéis, mas guiá-los especialmente nos momentos de maior tensão e dificuldade. O papel dos fiéis é serem dóceis ao ensinamento daqueles que Deus ordenou para guiar a Igreja.

Dossiê: Igreja Católica firme pela democracia

Chama a atenção o posicionamento firme da Igreja Católica e de seus bispos e organismos em favor da democracia e contra o golpe cívico-jurídico-legislativo em curso no país. Antes de continuar, sendo este um portal de notícias, cabe esclarecer os termos utilizados: depor um governante por crime de responsabilidade e manter a política escolhida nas urnas é impeachment, mas depor um governante, por qualquer motivo, e mudar a política é golpe.

Primeiro foi a nota da CNBB sobre o momento atual do Brasil, do dia 12 de março:

Conclamamos a todos que zelem pela paz em suas atividades e em seus pronunciamentos. Cada pessoa é convocada a buscar soluções para as dificuldades que enfrentamos. Somos chamados ao diálogo para construir um país justo e fraterno.

No dia 17, a Caritas e quatro pastorais nacionais lançaram manifesto em defesa da democracia – o que foi notícia até mesmo na Rádio Vaticano. Em vídeo sem data, o bispo de Crateús (CE), dom Ailton Menegussi, explica didaticamente o significado dos acontecimentos políticos, criticando os que tentam derrubar o atual governo – não se preocupam com os pobres, mas com a tomada do poder que não conquistaram nas urnas. Ontem (23), o bispo emérito de Jales, dom Luiz Demétrio Valentini, denuncia a tentativa de “deslegitimar o poder conferido pelas eleições” e “banir de vez [determinados atores e organizações partidárias] do cenário político nacional”. Dom Luiz exorta:

Em vez deste impeachment sem fundamento legal e sem justificativa, que nos unamos todos em torno das providências urgentes para que o Brasil supere este momento de crise, e reencontre o caminho da verdadeira justiça e da paz social.

Esse posicionamento firme da Igreja, por parte especialmente de seus bispos – incumbidos de governá-la, de apascentar o rebanho de Deus rumo ao aprisco celeste e de manter íntegro o depósito da fé – vem recebendo críticas dos que são favoráveis à deposição de Dilma Rousseff. Mas, como disse o servo de Deus dom Hélder Câmara: “Claro que dirão, Mariama, que é política, que é subversão. É Evangelho de Cristo, Mariama.”

Veja a íntegra dos documentos:

Nota da CNBB sobre o momento atual do Brasil

O fruto da justiça é semeado na paz, para aqueles que promovem a paz” (Tg 3,18)

Nós, bispos do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil–CNBB, reunidos em Brasília-DF, nos dias 8 a 10 de março de 2016, manifestamos preocupações diante do grave momento pelo qual passa o país e, por isso, queremos dizer uma palavra de discernimento. Como afirma o Papa Francisco, “ninguém pode exigir de nós que releguemos a religião a uma intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influência na vida social e nacional, sem nos preocupar com a saúde das instituições da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidadãos” (EG, 183).

Vivemos uma profunda crise política, econômica e institucional que tem como pano de fundo a ausência de referenciais éticos e morais, pilares para a vida e organização de toda a sociedade. A busca de respostas pede discernimento, com serenidade e responsabilidade. Importante se faz reafirmar que qualquer solução que atenda à lógica do mercado e aos interesses partidários antes que às necessidades do povo, especialmente dos mais pobres, nega a ética e se desvia do caminho da justiça.

A superação da crise passa pela recusa sistemática de toda e qualquer corrupção, pelo incremento do desenvolvimento sustentável e pelo diálogo que resulte num compromisso entre os responsáveis pela administração dos poderes do Estado e a sociedade. É inadmissível alimentar a crise econômica com a atual crise política. O Congresso Nacional e os partidos políticos têm o dever ético de favorecer e fortificar a governabilidade.

As suspeitas de corrupção devem ser rigorosamente apuradas e julgadas pelas instâncias competentes. Isso garante a transparência e retoma o clima de credibilidade nacional. Reconhecemos a importância das investigações e seus desdobramentos. Também as instituições formadoras de opinião da sociedade têm papel importante na retomada do desenvolvimento, da justiça e da paz social.

O momento atual não é de acirrar ânimos. A situação exige o exercício do diálogo à exaustão. As manifestações populares são um direito democrático que deve ser assegurado a todos pelo Estado. Devem ser pacíficas, com o respeito às pessoas e instituições. É fundamental garantir o Estado democrático de direito.

Conclamamos a todos que zelem pela paz em suas atividades e em seus pronunciamentos. Cada pessoa é convocada a buscar soluções para as dificuldades que enfrentamos. Somos chamados ao diálogo para construir um país justo e fraterno.

Inspirem-nos, nesta hora, as palavras do Apóstolo Paulo: “trabalhai no vosso aperfeiçoamento, encorajai-vos, tende o mesmo sentir e pensar, vivei em paz, e o Deus do amor e da paz estará convosco” (2 Cor 13,11).

Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, continue intercedendo pela nossa nação!

Brasília, 10 de março de 2016.

 

Dom Sergio da Rocha Dom Murilo S. R. Krieger

Arcebispo de Brasília-DF Arcebispo de S. Salvador da Bahia-BA

Presidente da CNBB Vice-Presidente da CNBB

Dom Leonardo Ulrich Steiner

Bispo Auxiliar de Brasília-DF

Secretário-Geral da CNBB

Carta Aberta em Defesa da Democracia

“Assim também vós: por fora pareceis justos aos olhos dos homens, mas por dentro estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” (Mt 23,28)

Neste momento em que vivenciamos a ameaça de golpe sobre a democracia brasileira, não podemos permitir que as conquistas democráticas e que os direitos civis, políticos e sociais sejam mais uma vez afrontados pela força da intolerância, do conservadorismo e da violência, física e/ou institucional.

O golpe civil militar de 1964 imprimiu na sociedade brasileira um quadro de pavor e sofrimento àqueles que lutavam por direitos e liberdades e a todo o povo brasileiro. Prisões arbitrárias, tortura e morte de lideranças populares, estudantes, sindicalistas, intelectuais, artistas e religiosos davam a tônica do estado de exceção que então se instalava.

Na nossa ainda jovem democracia, estamos presenciando o mesmo discurso de embate à corrupção propagado pelos meios de comunicação às vésperas do golpe de 1964. Mais uma vez a sociedade brasileira corre o risco de vivenciar o mesmo cenário de horror e pânico. As últimas ações de setores conservadores, incluindo os meios de comunicação, repercutem nas ruas e geram um clima de instabilidade, violência e medo.

Diante do risco de aprofundamento dessa situação e da quebra da ordem constitucional e social, a Cáritas Brasileira, a Comissão Pastoral da Terra – CPT, o Conselho Indigenista Missionário – CIMI, o Conselho Pastoral dos Pescadores – CPP e o Serviço Pastoral dos Migrantes – SPM vêm a público manifestar preocupações com a grave crise. Queremos que todos os fatos sejam apurados e que seja garantida a equidade de tratamento a todos os denunciados nas investigações em curso no país, respeitando-se o ordenamento jurídico brasileiro.

Tememos que os direitos constitucionais dos jovens, das mulheres, dos sem-teto, das comunidades tradicionais, dos povos indígenas, dos quilombolas e dos camponeses, especialmente aos seus territórios, sejam ainda mais violentamente negados.

Reafirmamos nosso compromisso com o combate à corrupção, resguardando que esse processo não represente retrocessos nas conquistas dos direitos historicamente conquistados pelo povo brasileiro.

Brasília, 17 de março de 2016

Cáritas Brasileira
Comissão Pastoral da Terra – CPT
Conselho Indigenistsa Missionário – CMI
Conselho Pastoral dos Pescadores – CPP
Serviço Pastoral dos Migrantes – SPM

Fala do bispo de Crateús, dom Ailton Menegussi

Sobre esse momento de crise política do Brasil, podem todos saber que o episcopado brasileiro é composto de quase 500 bispos. Vocês não vão pensar que 500 bispos pensem igualzinho ao outro. Mas, como CNBB, duas coisas posso dizer a vocês.

É claro que nenhum bispo concorda com corrupção, e nós apoiamos que as investigações sejam feitas, queremos que as denúncias sejam apuradas e que, uma vez provadas, e não antes de serem provadas — escutem bem isto: o que está acontecendo no Brasil é que já estão tratando de “criminosos” antes de se provar as coisas —, uma vez provadas, que se punam os culpados. Agora, os culpados não são desse partido ou daquele só não, não sejamos bobos: tem corrupto em tudo que é partido, e a corrupção não foi inventada de quinze anos pra cá. Não sejamos inocentes. O que está acontecendo é que agora se está permitindo que as coisas apareçam. Isso é bom, não é ruim. Esse é o primeiro pensamento da CNBB.

Segundo, nós não aceitamos que partido político nenhum aproveite essa crise para dar golpe no país. Não é hora de virar: “vamos aproveitar agora para tirar essa turma do poder, porque nós queremos voltar”. Nós não estamos interessados de trocar governo, simplesmente: nós queremos que o país seja respeitado. Que os cidadãos brasileiros sejam respeitados, é isto que quer a CNBB. Nós não vamos simplesmente apoiar troca de governos, de pessoas interesseiras, que estão apenas querendo se apossar, porque são carreiristas. Não vamos acreditar que — muito desse barulho aí — estejam preocupados conosco, não. Tem muita gente lá posando de santinho, mas que nunca pensou em pobre e não pensa em pobre. Tão fazendo discurso bonito porque querem o poder. E com isso a CNBB não concorda.

Democracia posta à prova

Dom Luiz Demétrio Valentini
Bispo Emérito de Jales

Estamos na iminência de uma ruptura constitucional. Em momentos assim, se faz necessário um apelo à consciência democrática, e uma advertência dos riscos de uma decisão política profundamente equivocada.

Falando claro e sem rodeios: com a tentativa de impeachment da Presidente Dilma, procura-se revestir de legalidade uma iniciativa política com a evidente intenção de destituir do poder quem foi legitimamente a ele conduzido pelo voto popular.

Isto fere o âmago do sistema democrático, que tem como pressuposto básico o respeito aos resultados eleitorais.

É preciso desmascarar a trama que foi sendo urdida, para criar artificialmente um pretenso consenso popular, para servir de respaldo aos objetivos que se pretende alcançar.

É notável que desde as últimas eleições presidenciais, os derrotados não aceitaram o resultado das urnas, e traduziram seu descontentamento em persistentes iniciativas de deslegitimar o poder conferido pelas eleições.

Outra evidência é a contínua e sistemática obstrução das iniciativas governamentais, praticada especialmente por membros do Congresso Nacional, com o evidente intuito de inviabilizar o governo, e aplainar o caminho para o golpe de misericórdia contra ele.

Está em andamento um verdadeiro linchamento político, conduzido sutilmente por poderosos meios de comunicação, contra determinados atores e organizações partidárias, que são continuamente alvo de acusações persistentes e generalizadas, e que se pretende banir de vez do cenário político nacional.

Causa preocupação a atuação de membros do Poder Judiciário, incluindo componentes da Suprema Corte, que deixam dúvidas sobre as reais motivações de suas decisões jurídicas, levando-nos a perguntar se são pautadas pelo zelo em preservar a Constituição e fazer a justiça, ou se servem de instrumento para a sua promoção pessoal ou para a vazão de seus preconceitos.

Em meio a esta situação limite, cabe ao povo ficar atento, para não ser ludibriado.

Mas cabe ao Judiciário a completa isenção de ânimo para garantir o estrito cumprimento da Constituição.

E cabe ao Congresso Nacional terminar com sua sistemática obstrução das iniciativas governamentais, e colaborar com seu apoio e suas sugestões em vista do bem comum, e não de interesses pessoais ou partidários.

Em vez deste impeachment sem fundamento legal e sem justificativa, que nos unamos todos em torno das providências urgentes para que o Brasil supere este momento de crise, e reencontre o caminho da verdadeira justiça e da paz social.