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Elegia da ovelha perdida

Este é o poema (de minha autoria) que declamei ontem no I Sarau da Paróquia e Santuário Nossa Senhora do Carmo (Brasília, DF). Baseia-se na parábola da ovelha perdida, é claro (Lc 15,4-6; Mt 18,12-14), mas também no livro do profeta Ezequiel (cap. 34), na primeira carta de São Paulo aos Coríntios e no Evangelho segundo São João (10,24-29).

É interessante pensar que, para os homens, talvez não haja razões para procurar quem se perdeu — fulano vivia aqui na paróquia, atuava nas pastorais, mas agora não vem nem à missa, dizem até que não quer mais ouvir falar da Igreja. Ou, pior, quantas vezes não somos nós que dispersamos o rebanho de Deus? Quantas vezes não afugentamos outros fiéis? Em vez disso, façamos o bem, mas não nos preocupemos demais quando uma ovelha se desgarrar— oremos, pois Deus “chama as ovelhas pelo nome e as conduz à pastagem.” (Jo 10, 3)

Elegia da ovelha perdida

(Por Leandro Arndt)

Vim fazer uma elegia
No rebanho uma ovelha
Uma ovelha não se via
Por ela, o que faria?

Era ovelha educada
Do Pastor seguia a voz
Ao Pastor acostumada
Jamais será roubada

E nos campos que pastava
Gordos campos de Israel
Sobre a relva repousava
Sua voz ela escutava

A ovelha assim viveu
Já nos campos não se via
Ninguém sabe se morreu
O que foi que aconteceu

Já findava a elegia
Mas eis que o Pastor, um tresloucado
Um Pastor alucinado
Saiu correndo pelos campos

Quem é o louco? – perguntavam
É alguém que pensa pouco
Abandona todo o rebanho
Pela ovelha desgarrada

Tresmalharam meu rebanho!
Dispersaram o que é meu!
Mas nenhuma perderei
Ouvirá o que direi!

Que sandice ele fazia!
Por aquela que não via
Quase cem abandonava!
O mundo assim pensava

Procurarei a que está perdida
Curarei a que está ferida
Reconduzirei a desgarrada
A doente será curada

Me foi tirada em negro dia
Eu ainda vou julgar
Se comigo ela voltar
Será a maior, essa alegria

Ela é minha, ela me ouve
Me conhece e me segue
Eu lhe dou a vida eterna
E jamais perecerá

Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 23-25

COMPÊNDIO DA DOUTRINA SOCIAL DA IGREJA

PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO I: O DESÍGNIO DE AMOR DE DEUS A TODA A HUMANIDADE

I. O AGIR LIBERTADOR DE DEUS NA HISTÓRIA DE ISRAEL
a) A proximidade gratuita de Deus

Do Decálogo deriva um compromisso que diz respeito não só ao que concerne à fidelidade ao Deus único e verdadeiro, como também às relações sociais no seio do povo da Aliança. Estas últimas são reguladas, em particular, pelo que se tem definido como o direito do pobre: « Se houver no meio de ti um pobre entre os teus irmãos… não endurecerás o teu coração e não fecharás a mão diante do teu irmão pobre; mas abrir-lhe-ás a mão e emprestar-lhe-ás segundo as necessidades da sua indigência» (Dt 15, 7-8). Tudo isto vale também em relação ao forasteiro: «Se um estrangeiro vier habitar convosco na vossa terra, não o oprimireis, mas esteja ele entre vós como um compatriota e tu amá-lo-ás como a ti mesmo, por que vós fostes já estrangeiros no Egito. Eu sou o Senhor vosso Deus» (Lv 19, 33-34). O dom da libertação e da terra prometida, a Aliança do Sinai e o Decálogo estão, portanto, intimamente ligados a uma praxe que deve regular, na justiça e na solidariedade, o desenvolvimento da sociedade israelita.

24Entre as multíplices disposições inspiradas por Deus, que tendem a concretizar o estilo de gratuidade e de dom, a lei do ano sabático (celebrado a cada sete anos) e do ano jubilar (cada cinqüenta anos)[A lei é enunciada em Ex 23, Dt 15, Lv 25.] se distingue como uma importante orientação — ainda que nunca plenamente realizada — para a vida social e econômica do povo de Israel. É uma lei que prescreve, além do repouso dos campos, a remissão das dívidas e uma libertação geral das pessoas e dos bens: cada um pode retornar à sua família e retomar posse do seu patrimônio.

Esta legislação entende deixar assente que o evento salvífico do êxodo e a fidelidade à Aliança representam não somente o princípio fundante da vida social, política e econômica de Israel, mas também o princípio regulador das questões atinentes à pobreza econômica e às injustiças sociais. Trata-se de um princípio invocado para transformar continuamente e a partir de dentro a vida do povo da Aliança, de maneira a torná-la conforme ao desígnio de Deus. Para eliminar as discriminações e desigualdades provocadas pela evolução sócio-econômica, a cada sete anos a memória do êxodo e da Aliança é traduzida em termos sociais e jurídicos, de sorte que a questão da propriedade, das dívidas, das prestações de serviço e dos bens seja reconduzida ao seu significado mais profundo.

25Os preceitos do ano sabático e do ano jubilar constituem uma doutrina social «in nuce»[Cf. João Paulo II, Carta apost. Tertio Millennio adveniente, 13]. Eles mostram como os princípios da justiça e da solidariedade social são inspirados pela gratuidade do evento de salvação realizado por Deus e não têm somente o valor de corretivo de uma praxe dominada por interesses e objetivos egoístas, mas, pelo contrário, devem tornar-se, enquanto «prophetia futuri», a referência normativa à qual cada geração em Israel se deve conformar se quiser ser fiel ao seu Deus.

Tais princípios tornam-se o fulcro da pregação profética, que visa a proporcionar a sua interiorização. O Espírito de Deus, derramado no coração do homem ― anunciam-no os Profetas ― fará aí medrar aqueles mesmos sentimentos de justiça e solidariedade que moram no coração do Senhor (cf. Jr 31, 33 e Ez 36, 26-27). Então a vontade de Deus, expressa na Decálogo doado no Sinai, poderá enraizar-se criativamente no próprio íntimo do homem. Desse processo de interiorização derivam maior profundidade e realismo para o agir social, tornando possível a progressiva universalização da atitude de justiça e solidariedade, que o povo da Aliança é chamado a assumir diante de todos os homens, de todo o povo e nação.

A Lei dada por Deus ao povo de Israel é, portanto, a expressão não apenas cultual, mas também social da Salvação. Cristo veio nos trazer a plenitude dela e, para tanto, não suprimiu a Lei, nem os profetas, mas os realizou ao extremo (Mt 5,17). É em Cristo crucificado que ambos se realizam, e, para sermos imitadores dele, devemos também nós realizar verdadeiramente essa Salvação, pelo cuidado com os pobres e pelo culto devido a Deus, pois um não é possível plenamente sem o outro (v. Ef 5,1s; Tg 1,27; I Jo 4,16ss). Nas eleições que se aproximam, reflitamos primeiro e decidamos pelo caminho da Salvação, pois ele também se expressa na política.

Entregar-se a Deus

O que Deus quer de nós? Ouso dizer que uma coisa muito simples: nós, todos e completamente. Deus nos fez à sua imagem e semelhança (Gn 1,26s). E quem é Deus, a quem devemos nos assemelhar?

Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Pai, que se conhece no Filho (seu lógos, Palavra Eterna – Jo 1,1s), que é idêntico ao Pai em tudo, por natureza e em relação filial. Pai que ama seu Filho no Espírito Santo de amor, que se entrega e se esvazia, Pai que confia ao Filho todas as coisas e lhe “concede o Espírito sem medidas” (Jo 3,34s). Filho que, em resposta eterna ao Pai, entrega a Este tudo o que recebeu, esvaziando-se completamente. “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito”, disse Jesus Cristo, ao espirar na Santa Cruz (Lc 23,46). Ao fazer isso, esvaziando-se e aniquilando-se completamente, recebeu o lugar que Lhe é devido desde a eternidade, à direita do Pai, e um nome que é acima de todos os nomes (Fl 2,6-11).

“Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos muito amados. Progredi na caridade, segundo o exemplo de Cristo, que nos amou e por nós se entregou a Deus como oferenda e sacrifício de agradável odor.” (Ef 5,1s)