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CNBB é contra o golpe: bispo de Crateús explica o porquê

Num momento de ânimos acirrados na sociedade brasileira, a palavra serena e coerente de um bispo pode fazer a diferença. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil já emitiu várias notas pedindo paz e governabilidade para o país, a mais recente publicada aqui no Caritas in Veritate. Mas, muitos insistem em não compreender, como se vê pelos comentários. Confira, então, as palavras do bispo de Crateús (CE), dom Ailton Menegussi:

Sobre esse momento de crise política do Brasil, podem todos saber que o episcopado brasileiro é composto de quase 500 bispos. Vocês não vão pensar que 500 bispos pensem igualzinho ao outro. Mas, como CNBB, duas coisas posso dizer a vocês.

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É claro que nenhum bispo concorda com corrupção, e nós apoiamos que as investigações sejam feitas, queremos que as denúncias sejam apuradas e que, uma vez provadas, e não antes de serem provadas — escutem bem isto: o que está acontecendo no Brasil é que já estão tratando de “criminosos” antes de se provar as coisas —, uma vez provadas, que se punam os culpados. Agora, os culpados não são desse partido ou daquele só não, não sejamos bobos: tem corrupto em tudo que é partido, e a corrupção não foi inventada de quinze anos pra cá. Não sejamos inocentes. O que está acontecendo é que agora se está permitindo que as coisas apareçam. Isso é bom, não é ruim. Esse é o primeiro pensamento da CNBB.

Segundo, nós não aceitamos que partido político nenhum aproveite essa crise para dar golpe no país. Não é hora de virar: “vamos aproveitar agora para tirar essa turma do poder, porque nós queremos voltar”. Nós não estamos interessados de trocar governo, simplesmente: nós queremos que o país seja respeitado. Que os cidadãos brasileiros sejam respeitados, é isto que quer a CNBB. Nós não vamos simplesmente apoiar troca de governos, de pessoas interesseiras, que estão apenas querendo se apossar, porque são carreiristas. Não vamos acreditar que — muito desse barulho aí — estejam preocupados conosco, não. Tem muita gente lá posando de santinho, mas que nunca pensou em pobre e não pensa em pobre. Tão fazendo discurso bonito porque querem o poder. E com isso a CNBB não concorda.

A humildade do apóstolo Paulo

A conversão de São Paulo, por Michelangelo (1542).

A conversão de São Paulo, por Michelangelo (1542).

Hoje a Igreja celebra a conversão de São Paulo apóstolo. Ele, que foi primeiro um perseguidor dos cristãos, se tornou depois talvez o maior evangelizador, pois levou a Boa Nova aos gentios, isto é, aos habitantes do Império Romano que não eram judeus — assim nós recebemos a fé. Esse homem, antes chamado Saulo, intenso perseguidor dos primeiros cristãos, presente no martírio de Santo Estêvão, diácono e primeiro mártir, investido de autoridade humana para perseguir os seguidores de Cristo, se tornou fraco. Antes cego pelo conhecimento humano — pois, fariseu e estudioso, era versado na Lei — ficou cego e viu a Luz que é Jesus Cristo Senhor (At 9,3-22). Na fraqueza se tornou verdadeiramente forte (2 Cor 12,9s) e “um instrumento escolhido, que levará o meu nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel” (At 9,15).

Paulo tinha todos os motivos para ser orgulhoso. Diante dos homens tinha um currículo invejável. Mas, isso não impediu que Deus lhe perguntasse: “Saulo, Saulo, por que me persegues?” Era justamente da autoridade humana que ele se investia para perseguir os primeiros cristãos. Contudo, como o próprio apóstolo escreveu:

No entanto, eu poderia confiar também na carne. Se há quem julgue ter motivos humanos para se gloriar, maiores os possuo eu: circuncidado ao oitavo dia, da raça de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu e filho de hebreus. Quanto à lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da Igreja; quanto à justiça legal, declaradamente irrepreensível. Mas tudo isso, que para mim eram vantagens, considerei perda por Cristo. Na verdade, julgo como perda todas as coisas, em comparação com esse bem supremo: o conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor. Por ele tudo desprezei e tenho em conta de esterco, a fim de ganhar Cristo e estar com ele. Não com minha justiça, que vem da lei, mas com a justiça que se obtém pela fé em Cristo, a justiça que vem de Deus pela fé. Anseio pelo conhecimento de Cristo e do poder da sua Ressurreição, pela participação em seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na morte, com a esperança de conseguir a ressurreição dentre os mortos. Não pretendo dizer que já alcancei (esta meta) e que cheguei à perfeição. Não. Mas eu me empenho em conquistá-la, uma vez que também eu fui conquistado por Jesus Cristo. Consciente de não tê-la ainda conquistado, só procuro isto: prescindindo do passado e atirando-me ao que resta para a frente, persigo o alvo, rumo ao prêmio celeste, ao qual Deus nos chama, em Jesus Cristo. (Fl 3,4-14)

E quantas vezes não nos tornamos também legalistas e perseguidores da Igreja! Quantas vezes não apontamos para nosso irmão e o tachamos de pecador? Conheço pessoas catolicíssimas que dizem que os bispos brasileiros seriam hereges. Se eles fossem mesmo hereges e não estivessem em comunhão com o papa, como estariam eles unidos a Cristo e à sua Igreja? Que autoridade têm eles para dizer que aqueles por quem recebem a fé e os sacramentos estariam longe da fé e do sacramento de Cristo, que é a Igreja?

Mas, lá vou eu julgando os outros do alto da minha pequenez… Fico estarrecido com os que apontam o pecado dos outros, mas eis que aponto pecado neles — ou melhor, aponto para um caso que talvez seja dos mais emblemáticos da nossa hipocrisia cotidiana. Se não cometo a estultice que mencionei, cometo muitas estultices às escondidas, que só eu sei — e das quais só Deus pode me libertar. Em vez desse comportamento, de apontar o erro dos outros, deveríamos fazer como nos diz com humildade o apóstolo Paulo:

E a graça de nosso Senhor foi imensa, juntamente com a fé e a caridade que está em Jesus Cristo. Eis uma verdade absolutamente certa e merecedora de fé: Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais sou eu o primeiro. (I Tm 1,14s)

Oremos segundo a liturgia de hoje:

Ó Deus, que instruístes o mundo inteiro pela pregação do apóstolo São Paulo, dai-nos, ao celebrar hoje sua conversão, caminhar para vós seguindo os seus exemplos, e ser no mundo testemunhas do Evangelho. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.

Amém!