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Cristianismo e regulação da mídia

Embed from Getty Images Onde fica o homem, diante da liberdade desenfreada da empresa midiática?

Em recente entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o atual presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, afirmou: “Aborto e regulação de mídia, só passando por cima do meu cadáver. […] Regulação econômica de mídia já existe. Você não pode ter mais de cinco geradoras de televisão.” Ele é da “bancada evangélica” da Câmara. E muitos mais defendem posições semelhantes supostamente em nome do cristianismo.

Contudo, ser cristão é seguir os passos de Jesus Cristo, imitá-lo em tudo (Jo 12,26; Rm 8,29, 1Cor 11,1), e Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6). O Espírito que ele envia de junto do Pai é a verdade (Jo 15,26; 1Jo 5,6). Os verdadeiros adoradores adoram o Pai “em espírito e verdade” (Jo 4,23). E imitar Jesus é imitá-lo também no amor: “como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros. Nisto reconhecerão todos que sois meus discípulos se tiverdes amor uns pelos outros” (Jo 13,34c-35). O amor e a verdade são, portanto, critérios do seguimento de Jesus, e devem ser manifestar em nossas vidas.

Embed from Getty Images A única responsabilidade social do capital seria o lucro?
Dado esse ponto de partida moral, como o cristão deve atuar relativamente à regulação da mídia? Eduardo Cunha propõe deixar tudo para o “mercado”: somente a regulação econômica da mídia valeria. Mas, o mercado está preocupado com o amor e a verdade, ou apenas com a liberdade de atuação econômica, com o aumento do capital? Milton Friedman, ideólogo do moderno liberalismo, diz que “há uma e só uma responsabilidade social do capital — usar seus recursos e dedicar-se a atividades destinadas a aumentar seus lucros” (Capitalismo e liberdade. Artenova, 1977, p. 116).

Diante dessa busca desenfreada de lucros, onde ficam a verdade e o amor? Jogados para escanteio, para dizer o mínimo. Quando da tramitação do processo que culminou na extinção da lei de imprensa, os maiores veículos de comunicação exigiam que fosse julgada totalmente inconstitucional. Isso acabou, por exemplo, com o direito de resposta àquele que seja ofendido ou a respeito de quem tenha sido divulgada informação falsa ou inverídica por meio de comunicação. Hoje há somente o direito à reparação pecuniária (pelo código civil) e a persecução penal, mas nenhuma obrigação de reparação moral pelos mesmos meios com que houve a ofensa, como antes havia. Como fica aquela pessoa que tenha sido difamada pela mídia? Desprovida de sua dignidade fundamental.

E esse é somente um dos problemas. Sem regulação da mídia, as empresas ficam livres para engordarem os bolsos de seus proprietários sem o menor pudor. Acontece que os bens criados foram dados para serem administrados em benefício de todos, não apenas de alguns. “A origem primeira de tudo o que é bem é o próprio ato de Deus que criou a terra e o homem, e ao homem deu a terra para que a domine com o seu trabalho e goze dos seus frutos (Cf. Gn 1, 28-29). Deus deu a terra a todo o gênero humano, para que ela sustente todos os seus membros sem excluir nem privilegiar ninguém. Está aqui a raiz da destinação universal dos bens da terra. Esta, pela sua própria fecundidade e capacidade de satisfazer as necessidades do homem, constitui o primeiro dom de Deus para o sustento da vida humana”, disse o santo papa João Paulo II (Centesimus annus, 31).

Portanto, quando alguém se vê proprietário de um meio de comunicação, deve exercer esse dom em benefício de todos. Por exemplo, sem impor a criação de conteúdo apenas na sede de uma emissora de televisão, o que violaria a dignidade das culturas locais. Ou então, manipulando a informação de maneira a privar do debate político ou econômico o ponto de vista de grupos que divirjam dos interesses comerciais da empresa — o que muitas vezes é disfarçado ao se chamar sempre “analistas” que defendam apenas o ponto de vista empresarial, como se fossem imparciais. Ou ainda, sendo muito severos com um grupo, mas sempre muito lenientes com outro: o “mensalão” é dito “do PT”, mas o “escândalo da Alstom” não é dito do PSDB…

Deve-se, portanto, defender que a mídia aja conforme o amor e a verdade: são estas as balizas da ação humana. Contudo, não se vê isso acontecer sem regulação. Regulamente-se, então, a mídia ao menos para cumprir o que disse S. João XXIII:

O homem tem o direito natural de ver respeitada sua devida honra; de gozar de boa fama; de livremente investigar a verdade e, dentro dos limites da ordem moral e do bem comum, manifestar e divulgar sua opinião e cultivar qualquer arte; finalmente, de ser informado sobre os acontecimentos públicos segundo a verdade. (Pacem in Terris, DS 3959)

 

Contra tantos mandatos do ódio

Embed from Getty Images Vivemos sob o mandato do ódio?

Vivemos em um mundo desesperado. Tantos conflitos abertos, tantos conflitos ocultos, todos violentos. O Estado Islâmico e o Boko Haram. O tráfico de drogas e o tráfico de gente. Não bastasse a violência, menosprezamos nosso papel de cuidadores da criação, e deixamos faltar água nas regiões mais populosas do Brasil (que, segundo aprendi, é um país muito rico em recursos hídricos). São tantas estruturas de pecado!

Parece-me certas vezes que nos cabe o mandato de Jeremias: “dou-te hoje poder sobre as nações e sobre os reinos para arrancares e demolires, para arruinares e destruíres, para edificares e plantares” (Jr 1,10). Esse mundo acaso terá salvação? Não seria possível destruir tudo o que aí está, estruturas de pecado junto, e reedificá-lo à imagem do Reino de Deus?

Mas, um dia desses, enquanto dirigia, ouvi melhor uma passagem da aclamação ao Evangelho da Missa dos Quilombos:

Contra tantos mandatos do Ódio,
Tu nos trazes a Lei do Amor.
Frente a tanta Mentira
Tu és a Verdade, Senhor.

Entre tanta notícia de Morte,
Tu tens a Palavra da Vida.
Sob tanta promessa fingida,
sobre tanta esperança frustrada,
Tu tens, Senhor Jesus,
a última palavra.
E nós apostamos em Ti!!!

Aleluiá, aleluiá, aleluiá!
Aleluiá, aleluiá, aleluiá!
A Tua Verdade nos libertará.
Aleluiá, aleluiá, aleluiá!
Aleluiá, aleluiá, aleluiá!

Essa é a verdade, oculta sob o véu odioso do pecado e da morte: Jesus tem a última palavra! Ele foi manso e, conduzido como cordeiro ao matadouro, se deixou matar (Is 53,7; Jr 11,19; Jo 1,29). Foi morto porque o amor não é aceito onde o ódio prevalece. Foi morto porque é o verdadeiro Rei: “Jesus Cristo, Rei dos Judeus”, dizia sua sentença. Que mundo é esse onde o Rei verdadeiro morre, e os usurpadores reinam? Mas, no terceiro dia, Jesus Cristo ressuscitou. Esta é a última palavra! Sob a aparência do reinado da morte, é na verdade Deus que nos deixa dar frutos. Uns produzem ódio, outros, amor — Deus nos deixa escolher o nosso destino. Ao final, só uma palavra prevalecerá, a palavra do amor!

Ouça essa bela música de Milton Nascimento, Dom Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra:

Repartir a sabedoria

Hoje é dia de comemorar São João Crisóstomo (c. 349-407), bispo e doutor da Igreja. Não teve medo de promover a reforma dos costumes, tanto do clero quanto dos fiéis. Recebeu a oposição da corte imperial e de inimigos pessoais, o que lhe rendeu duas vezes o exílio. Segundo a liturgia das horas, “a sua notável diligência e competência na arte de falar e escrever, para expor a doutrina católica e formar os fiéis na vida cristã, mereceu-lhe o apelativo de Crisóstomo, ‘boca de ouro’.”

No comum dos doutores da Igreja para o ofício das laudes (oração do início do dia, na liturgia das horas), lemos do livro da Sabedoria (Sb 7,13-14)

Aprendi a Sabedoria sem maldade e reparto-a sem inveja; não escondo a sua riqueza. É um tesouro inesgotável para os homens; os que a adquirem atraem a amizade de Deus, porque recomendados pelos dons da instrução.

Ao rezar o ofício, não pude deixar de lembrar de imediato as palavras de Cristo (Mt 5,14-16):

Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus.

A sabedoria que Deus nos dá e que devemos repartir nos foi dada toda e diretamente por Ele (Jo 15,15):

Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz seu senhor. Mas chamei-vos amigos, pois vos dei a conhecer tudo quanto ouvi de meu Pai.

Que nossas obras e nossas ações sejam um compartilhar a sabedoria que Deus nos dá em sua Igreja, na vida dos santos e nos dons do Espírito. Que, nesse mundo que reduziu o homem à mera racionalidade, mas que não houve nem sequer o que a razão diz (Rm 1,18ss), possamos espalhar a sabedoria da fé!

Amor na Verdade

Verdade e amor: eis duas palavras-chave para se compreender o Deus cristão. “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele.” (I Jo 4,16). “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Jo 14,6). Portanto, todo aquele que deseja atingir a união divina, que quer ser “templo do Espírito Santo” (I Co 6,19) e membro do Corpo de Cristo (Ef 5,29-30), deve se pautar por duas palavras: amor e verdade.

“Amor na verdade” é o que prega o Papa Bento XVI em sua encíclica que dá nome a este blog: Caritas in veritate. Demos a palavra ao vigário de Cristo:

A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor — “caritas” — é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz. É uma força que tem a sua origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta. Cada um encontra o bem próprio, aderindo ao projecto que Deus tem para ele a fim de o realizar plenamente: com efeito, é em tal projecto que encontra a verdade sobre si mesmo e, aderindo a ela, torna-se livre (cf. Jo 8, 32). Por isso, defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade. Esta, de facto, “rejubila com a verdade” (1 Cor 13, 6). Todos os homens sentem o impulso interior para amar de maneira autêntica: amor e verdade nunca desaparecem de todo neles, porque são a vocação colocada por Deus no coração e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e liberta das nossas carências humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos, em plenitude, a iniciativa de amor e o projecto de vida verdadeira que Deus preparou para nós. Em Cristo, a caridade na verdade torna-se o Rosto da sua Pessoa, uma vocação a nós dirigida para amarmos os nossos irmãos na verdade do seu projecto. De facto, Ele mesmo é a Verdade (cf. Jo 14, 6).

“Ele mesmo é a Verdade”. É por isso que Santa Teresa Benedita de Jesus (Dr.ª Edith Stein) dizia: “Quem busca a verdade, busca Deus, seja ou não consciente disso”. Assim, esse blog se destina aos cristãos, obviamente, mas também aos que sinceramente buscam a verdade, sem ainda terem encontrado a Verdade, que é Deus. Cientistas de todas as ciências, vocês serão bem recebidos aqui. Eu mesmo sou cientista, historiador, e não renego nem uma vírgula disso. Deus ama sua criação, e eu, como historiador, estudo essa criação, falo dos homens aos homens. Como estudante de teologia, quero falar de Deus a esses mesmos homens.

Por fim, aqui também falarei muito do amor, unido intrinsecamente à verdade, pois não é possível amar Deus sem amar os homens (I Jo 4,20). Falarei de amor aos que dizem amar, procurando que cheguemos todos juntos à Verdade. Falarei sobre e para os que amam sem conhecer a verdade, e falarei, com amor, do diálogo que deve haver entre os que amam, conhecendo a verdade ou não. Aqui, se Deus nos conceder esta graça, encontraremos a Verdade e o Amor que libertam e plenificam o ser humano. Amém!