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Postagens de julho 2012

Amar os homossexuais

Eu não deveria me surpreender, nos tempos atuais, com o que li hoje. Um site “católico” teria divulgado uma lista de políticos que mereceriam o “cartão vermelho” do eleitor católico por comporem “frente organizada pelo agressivo lobby gay no Congresso Nacional que propõe, entre outras coisas, que crianças sejam doutrinadas na ideologia gayzista, que o Estado financie paradas gays e políticas de interesse do lobby, e que cidadãos sejam perseguidos e presos por se oporem a isso”. Nada mais anticristão do que dizer tais bobagens. Quem é Nosso Senhor Jesus Cristo? Como Ele agiu em sua vida terrena?

Até onde sei, Nosso Senhor não disse “Abominarás os gays, este é o maior e primeiro mandamento; o segundo, semelhante a este é: abominarás a ideologia gayzista como abominas os gays.” Não se trata apenas de um neologismo horrendo, mas de uma completa subversão das palavras de Cristo (Mt 22,37-40):

Respondeu Jesus: Amarás o Senhor teu Deus de todo teu coração, de toda tua alma e de todo teu espírito (Dt 6,5). Este é o maior e o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás teu próximo como a ti mesmo (Lv 19,18). Nesses dois mandamentos se resumem toda a lei e os profetas.

Quem é o próximo, a quem devemos amar? Na parábola do Bom Samaritano (Lc 10,25-37), Jesus Cristo ensina que até mesmo um samaritano pode ser o próximo para um judeu – e quem mais pecador, para um judeu, do que um samaritano?

Empréstimo pseudo-evangélico

A questão “anti-gayzista” parece na verdade um empréstimo pseudo-evangélico, isto é daqueles falsos profetas que andam o tempo todo com uma bíblia debaixo do braço dizendo “Senhor, Senhor!”, mas que não fazem a vontade do Pai – esses não entrarão no Reino dos céus (Mt 7,21). Não preciso citar quem são, pois eles mesmos dão seu testemunho.

O Catecismo da Igreja Católica (CIC), ao contrário, dá exemplo da sã doutrina, plenamente de acordo com o ensinamento do verdadeiro Evangelho revelado por Deus aos seus discípulos. Após dizer que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados, ainda que sua gênese psíquica permaneça por se explicar (§ 2.357), assim afirma:

2358. Um número considerável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente radicadas. Esta propensão, objectivamente desordenada, constitui, para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar devido à sua condição.

2359. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio duma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.

Isso mesmo! Os homossexuais são chamados a uma vida de santidade, tanto quanto os heterossexuais! E, mais ainda, devemos ajudá-los com uma “amizade desinteressada”! Nesse momento, São João da Cruz nos convidaria a todos para a “noite dos sentidos” e a “noite da fé”, a fim de nos fecharmos para o que nós mesmos criamos e nos abrirmos para o que vem de Deus (v. Subida do Monte Carmelo).

Quem ou o que merece o “cartão vermelho”?

Quem, na política, verdadeiramente merece o “cartão vermelho” dos católicos? Todo aquele que vai contra o amor cristão. Isso significa ir contra o respeito aos trabalhadores, às crianças, aos idosos e a todos os que se encontram em uma situação frágil em nossa sociedade, inclusive os homossexuais.

Numa sociedade em que tantos atos de homofobia ocorrem diariamente, muitas vezes ganhando as manchetes devido à violência e à arbitrariedade com que são escolhidas suas vítimas (às vezes pai e filho, ou então irmãos, porque se abraçam), não é possível a um verdadeiro cristão assistir de braços cruzados. É preciso agir e garantir os direitos humanos, inclusive alterando a legislação para que tamanha barbárie não passe impune. É o que procura fazer o PLC 122/2006, que apenas amplia a legislação penal que já combate o preconceito e a discriminação, passando a abranger também o preconceito e a discriminação contra homossexuais, bissexuais, transexuais, travestis e até heterossexuais, de acordo com o último relatório, de autoria da senadora Marta Suplicy.

A violência, o preconceito e a discriminação é que merecem nosso “cartão vermelho”.

A sacramentalização do rito

É consabido que o Concílio Ecumênico Vaticano II introduziu reformas na liturgia católica e também no modo de agir com as igrejas separadas. Alguns setores tradicionalistas, em que pese, digamos, o grande risco de cisma, não aceitaram as decisões conciliares e resolveram promover uma guerra contra toda e qualquer renovação na Igreja, sob o pretexto de defendê-la da “heresia modernista” e da “apostasia silenciosa”. Incorrem em diversas contradições, contudo.

É verdade que os riscos modernistas e silenciosamente apóstatas foram salientados por papas passados, e muito convenientemente. Contudo, quando grupos como a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) dizem defender a Igreja da própria Igreja, estão eles combatendo uma apostasia, ou criando eles mesmos uma apostasia? Estão combatendo um modernismo pernicioso, ou cultivando um tradicionalismo pernicioso?

A FSSPX e a liturgia

Em que pese a FSSPX e os tradicionalistas em geral falarem também de outros assuntos, a questão principal é sempre a liturgia. Veja-se a apresentação da “tradução informal para o português” de Acuso o Concílio, publicada pela FSSPX no Brasil:

Dom Lefebvre atraiu a atenção do mundo por sua oposição às mudanças que se faziam na Igreja em nome do Concílio Vaticano II. Textos ambíguos, aprovados pela possibilidade de uma interpretação ortodoxa, eram invocados depois para justificar uma interpretação heterodoxa. As reformas na liturgia tinham implicâncias teológicas capazes de adulterar a fé. Logo, não eram lícitas.

Ressalte-se que Constituição Sacrosanctum Concilium, sobre a reforma da liturgia, foi aprovada com 2.147 votos favoráveis e apenas 4 contrários. Ou seja, foi certamente a expressão da vontade dos pastores da Igreja Católica, não por uma estreita maioria, mas por um consenso do qual discordaram quase que apenas os que se separaram da Sé romana.

Os que seguem tal fraternidade afirmam, em primeiro lugar, que se trataria de uma fórmula com 2.000 anos de existência. É mentira. O rito aprovado por pelo papa São Pio V foi, justamente, aprovado por este papa, em conformidade com a doutrina sobre o Sacrifício [Eucarístico] da Missa, do Concílio de Trento, de 17 de setembro de 1562. A promulgação do rito data de 8 anos depois, 1570. Portanto, é um rito mais ou menos fixado há 442 anos e que não impediu a celebração de diversos outros ritos, como, por exemplo, o ucraíno e o ambrosiano. Trata-se de uma fixação do rito romano e de sua extensão por toda a parte onde não se usasse tradicionalmente um rito diferente.

Historicidade do rito romano tradicional

Qual a finalidade de se fixar uma determinada fórmula para celebração da Missa, e ainda obrigar que seja dita em latim, em vez da língua local? Simplesmente porque, no século XVI, o uso do vernáculo se misturava aos ímpetos cismáticos dos que viam, na autoridade do papa, uma espécie de ditadura romana. Isso levou a cismas, heresias e até mesmo guerras, como a guerra camponesa na Alemanha nos anos 1520 (não por acaso, logo no início da reforma luterana). A língua litúrgica e a autoridade dos príncipes se misturaram e resultaram em que, a meados daquele século, os príncipes do Sacro Império Romano-Germânico pudessem impor a profissão de fé de Augsburgo (luterana) ou a romana. Mesmo em tais condições, o Concílio de Trento estabeleceu:

Ainda que a Missa inclua muita instrução para o povo fiel, sem dúvida não pareceu conveniente aos Padres que ela seja celebrada em todas as partes em língua vulgar. Por este motivo, ordena o Santo Concílio aos Pastores e a todos que tenham cura de almas, que conservando em todas as partes o ritual antigo de cada igreja, aprovado por esta Santa Igreja romana, Mãe e Mestra de todas as igrejas, com a finalidade de que as ovelhas de Cristo não padeçam de fome, ou as crianças peçam pão e não haja quem o reparta, exponham freqüentemente por si ou por outros, algum ponto dos que se leêm na Missa, no tempo que esta se celebra entre os demais, declarem especialmente nos domingos e dias de festa, algum mistério deste santíssimo sacrifício.

Ou seja, decidiu que ela não seja “celebrada em todas as partes em língua vulgar”, mas que se exponha freqüentemente (em língua vulgar) “algum ponto dos que se lêem na Missa”. Mais adiante, no mesmo documento sobre a doutrina da Missa, condenam-se apenas os que defendem “que a Missa deve ser dita sempre em língua vulgar” (cânon IX).

Ademais, o rito sofreu alterações posteriores, incluindo a oração a São Miguel Arcanjo que, por determinação do Papa Leão XIII passou a ser rezada ao final da Missa a partir de 1886 (há 126 anos).

Missa e signos

O ritual da Missa é essencialmente a significação do sacrifício de Cristo. Ou seja, o sacrifício eucarístico, instituído diretamente por Deus, é atualizado através de sinais visíveis. Esses sinais, por sua vez, derivam diretamente das palavras proferidas por Jesus na última ceia, em que instituiu sua memória, a atualização do sacrifício, e o sacerdócio dos apóstolos. Tais palavras foram provavelmente ditas em aramaico, língua corrente na Palestina daquela época. Foram escritas no evangelho em grego. Daí, foram vertidas para o latim. Não perderam, contudo, seu significado, quer dizer, transmitem ainda hoje o sinal da morte e da ressurreição do Deus Vivo. Instituem verdadeiramente a Eucaristia, o sacrifício divino em favor dos pecadores, não pelo poder das palavras, mas pelo poder sacerdotal que Deus confere aos presbíteros e pastores da Igreja universal. Para que os sinais do verdadeiro e real sacrifício presente na missa sejam recebidos pelos fiéis, é necessário que estes compreendam o que é feito, como diz a constituição conciliar mais recente:

11. Para assegurar esta eficácia plena, é necessário, porém, que os fiéis celebrem a Liturgia com rectidão de espírito, unam a sua mente às palavras que pronunciam, cooperem com a graça de Deus, não aconteça de a receberem em vão. Por conseguinte, devem os pastores de almas vigiar por que não só se observem, na acção litúrgica, as leis que regulam a celebração válida e lícita, mas também que os fiéis participem nela consciente, activa e frutuosamente.

Portanto, para que não haja um involuntário sacrilégio, é necessário que o fiel participe do sacrifício no sentido de compreendê-lo e apreendê-lo. Para que o uso da língua vernácula, “de grande utilidade para os fiéis”, não excedesse sua função, a mesma constituição determina que o texto traduzido deva ser aprovado pelo Vaticano (n.º 36).

O Concílio Vaticano II e os ritos já estabelecidos

Ademais, o mais recente concílio não teve propósito de alterar a fé, e sim de reafirmá-la e atualizar sua expressão. No tocante aos ritos, assim prescreve:

4. O sagrado Concílio, guarda fiel da tradição, declara que a santa mãe Igreja considera iguais em direito e honra todos os ritos legitimamente reconhecidos, quer que se mantenham e sejam por todos os meios promovidos, e deseja que, onde for necessário, sejam prudente e integralmente revistos no espírito da sã tradição e lhes seja dado novo vigor, de acordo com as circunstâncias e as necessidades do nosso tempo.

Deixemos ao próprio concílio falar a respeito de seus objetivos pastorais na reforma da liturgia:

1. O sagrado Concílio propõe-se fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja. Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia.

Separar-se da fé católica dizendo defender a tradição contra o “modernismo” do Concílio Ecumênico Vaticano II é, portanto, tentar transformar a forma litúrgica (o rito) em um falso sacramento, como se tivéssemos na tradição uma forma ritual instituída diretamente por Deus, e não sinais visíveis do real sacramento eucarístico. E querer retirar dos sinais visíveis a possibilidade de ter receptores entre os fiéis leigos é querer retirar destes a possibilidade de acederem à realidade do sacrifício do Deus Vivo presente na Missa.

Querem continuar a celebrar conforme o missal antigo? Não há problema, ele continua sendo válido, pois obedece plenamente ao que é imutável. É uma das “duas formas da única lex orandi da Igreja de rito latino.” Porém, não podemos sacralizar o que está sujeito à mudança. A língua latina evoluiu. As palavras de Cristo foram vertidas para essa língua. A Missa evoluiu, mesmo no rito de S. Pio V. Os sinais continuaram lá. Agora temos uma outra forma, preferível porque atinge mais pessoas e é capaz de reunir mais fiéis em torno do sagrado sacrifício. Não há uma oposição que se possa fomentar, pois também nessa nova forma os sinais continuam. Quem quer que a Missa perca seu sabor para o povo? “O sal é uma coisa boa, mas se ele perder o seu sabor, com que o recuperará? Não servirá nem para a terra nem para adubo, mas lançar-se-á fora. O que tem ouvidos para ouvir, ouça!” (Lc 14,34-35)

Amor na Verdade

Verdade e amor: eis duas palavras-chave para se compreender o Deus cristão. “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele.” (I Jo 4,16). “Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.” (Jo 14,6). Portanto, todo aquele que deseja atingir a união divina, que quer ser “templo do Espírito Santo” (I Co 6,19) e membro do Corpo de Cristo (Ef 5,29-30), deve se pautar por duas palavras: amor e verdade.

“Amor na verdade” é o que prega o Papa Bento XVI em sua encíclica que dá nome a este blog: Caritas in veritate. Demos a palavra ao vigário de Cristo:

A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurreição, é a força propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor — “caritas” — é uma força extraordinária, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justiça e da paz. É uma força que tem a sua origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta. Cada um encontra o bem próprio, aderindo ao projecto que Deus tem para ele a fim de o realizar plenamente: com efeito, é em tal projecto que encontra a verdade sobre si mesmo e, aderindo a ela, torna-se livre (cf. Jo 8, 32). Por isso, defender a verdade, propô-la com humildade e convicção e testemunhá-la na vida são formas exigentes e imprescindíveis de caridade. Esta, de facto, “rejubila com a verdade” (1 Cor 13, 6). Todos os homens sentem o impulso interior para amar de maneira autêntica: amor e verdade nunca desaparecem de todo neles, porque são a vocação colocada por Deus no coração e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e liberta das nossas carências humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos, em plenitude, a iniciativa de amor e o projecto de vida verdadeira que Deus preparou para nós. Em Cristo, a caridade na verdade torna-se o Rosto da sua Pessoa, uma vocação a nós dirigida para amarmos os nossos irmãos na verdade do seu projecto. De facto, Ele mesmo é a Verdade (cf. Jo 14, 6).

“Ele mesmo é a Verdade”. É por isso que Santa Teresa Benedita de Jesus (Dr.ª Edith Stein) dizia: “Quem busca a verdade, busca Deus, seja ou não consciente disso”. Assim, esse blog se destina aos cristãos, obviamente, mas também aos que sinceramente buscam a verdade, sem ainda terem encontrado a Verdade, que é Deus. Cientistas de todas as ciências, vocês serão bem recebidos aqui. Eu mesmo sou cientista, historiador, e não renego nem uma vírgula disso. Deus ama sua criação, e eu, como historiador, estudo essa criação, falo dos homens aos homens. Como estudante de teologia, quero falar de Deus a esses mesmos homens.

Por fim, aqui também falarei muito do amor, unido intrinsecamente à verdade, pois não é possível amar Deus sem amar os homens (I Jo 4,20). Falarei de amor aos que dizem amar, procurando que cheguemos todos juntos à Verdade. Falarei sobre e para os que amam sem conhecer a verdade, e falarei, com amor, do diálogo que deve haver entre os que amam, conhecendo a verdade ou não. Aqui, se Deus nos conceder esta graça, encontraremos a Verdade e o Amor que libertam e plenificam o ser humano. Amém!