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Poder e reforma na Inglaterra

Quem dera a história da Igreja fosse feita só de interesses religiosos! Mas, estudá-la a fundo reforça a compreensão da santidade da Igreja constituída por Cristo sobre Pedro, pois nem mesmo os mais pérfidos interesses foram capazes de prevalecer sobre ela (v. Mt 16,18). A época da reforma protestante foi de grandes interesses mundanos. Na Alemanha, o papel de príncipes e burgueses reformistas foi o de buscar autonomia dentro do Sacro Império Romano-Germânico. Em termos mundanos, essa foi a conseqüência principal da reforma luterana, imposta pelo poder da espada por essas mesmas autoridades a todos os seus súditos. Primeiro trataram da autonomia dos estados dentro do Império, e a questão religiosa foi adiada para um Concílio Ecumênico futuro, mas a separação foi se consolidando, e os partidos foram se aferrando a suas posições, a ponto de os luteranos não participarem de tal Concílio, quando finalmente ocorreu em Trento, de 1545 a 1563. A reforma luterana aconteceu fora da Igreja e dentro das cidades e principados terrenos.

Na Inglaterra, a questão toda ocorreu de maneira diferente. “Igreja Anglicana” significa simplesmente “Igreja da Inglaterra”, e por muito tempo os ingleses estiveram unidos à Igreja Católica. Porém, esse mesmo termo, que dá relevo à nacionalidade inglesa, expressa um certo estranhamento em relação ao primado romano. No período que vai da baixa Idade Média às revoluções burguesas do século XIX, duas igrejas nacionais se destacaram: a francesa (chamada galicana) e a inglesa. O final da Idade Média se destacou também pelas teses que tentavam submeter o sucessor de Pedro aos concílios ecumênicos, e, desse enfraquecimento da autoridade papal, tornado visível no cativeiro de Avinhão (cidade francesa da qual alguns papas foram obrigados a governar a Igreja universal) e no grande cisma do ocidente.

Herdeiro desse cenário de tentativas de prevalência do poder temporal sobre o poder espiritual, o rei Henrique VIII foi, no entanto, considerado defensor fidei (defensor da fé) por declaração do papa Leão X, pois foi importante apologista da fé católica contra os argumentos dos reformadores do continente europeu. Esperar-se-ia que a Inglaterra se mantivesse unida à Igreja de Roma. Contudo, não foi o que ocorreu.

Henrique VIII era casado desde 1509 com Catarina de Aragão, tia do imperador Carlos V, do Sacro Império Romano-Germânico, onde ocorreu a reforma luterana e duras guerras entre camponeses, príncipes e cidades autônomas. Assim como Carlos V tentou manter a fé católica no Império, Henrique VIII a defendeu na ilha britânica. Porém, este se indispôs contra Catarina, sua esposa, e procurou obter a declaração de nulidade de seu matrimônio, mas não obteve sucesso. Queria casar-se com Ana Bolena, pois Catarina não lhe dera sucessores, apenas uma filha (em 1516), depois do que, ficou estéril. Alegava sofrer de “escrúpulos”, porque sua esposa era viúva de Artur, irmão mais velho do rei. Ocorre que, justamente por isso, Henrique VIII precisara de dispensa papal para contrair núpcias. Como poderia sofrer de escrúpulos, se antes lutara e litigara para poder casar-se com ela?

O rei inglês nunca conseguiria licitamente a declaração de nulidade desse casamento. Diante do fracasso de uma tentativa de subornar legados papais, determinou que esses mesmos legados – já com poderes revogados pelo papa – se constituíssem em tribunal eclesiástico para julgar o assunto, mas eles se recusaram a declarar a nulidade: “Não pretendo condenar a minha alma por causa de nenhum príncipe ou potentado. Assim, não levarei adiante este caso”, disse em 1529 o núncio apostólico, cardeal Campeggio, um desses legados (apud MORE, 2002, p. 9). O outro legado, chanceler do reino e cardeal Wosley, perdeu o cargo, no qual foi substituído por S. Thomas More. Este, advogado e leigo, gozou de boa fama junto ao povo e da confiança do rei, o qual pediu que examinasse a questão matrimonial. Declarou, porém, que não seria a pessoa indicada para emitir um parecer, porque se tratava de questão de direito canônico.

A questão, contudo, foi assumindo cada vez maiores proporções, e, instigados por maus conselheiros, o rei e o parlamento exigiram em 1532 que Henrique VIII fosse considerado cabeça suprema da igreja na Inglaterra. Apenas três bispos assinaram um documento de submissão total ao rei, mas os demais, exceto S. John Fisher, que estava doente, abandonaram a reunião em que isso foi feito. “A fortaleza foi traída por aqueles mesmos que a deveriam ter defendido”, afirmou Fisher (apud More, 2002, p. 13). Em 1533, foi editado pelo parlamento o ato de sucessão ao trono, que declarava nulo o casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão e negava a jurisdição universal do papa, além de obrigar os súditos ao juramento desse mesmo ato. No ano seguinte, novo ato do parlamento obrigava ao juramento do ato de sucessão, além da abjuração de qualquer autoridade fora do reino da Inglaterra – incluído o papa. Também em 1534, um terceiro ato, o ato de traição, condena à morte quem queira, pense, escreva ou diga algo que negue ao rei, sua família ou seus sucessores sua dignidade, seus títulos ou suas posses. Isso incluiria pensar que o rei da Inglaterra não é o chefe supremo da Igreja nesse país (mas sim o papa).

O processo contra More foi emblemático de que a questão não era teológica, mas política. Os nomes mais elevados do reino foram destacados para convencê-lo da “boa vontade” do rei e da sua própria deslealdade, além alertá-lo das conseqüências da desobediência. More, entretanto, negou-se a jurar o que não poderia ser jurado sem grave ofensa a Deus e a sua consciência (a nulidade do matrimônio do rei e que este seria cabeça suprema da igreja local), mas tampouco fez propaganda contra o rei, a quem servira e de quem obtivera muitos benefícios, inclusive a chancelaria. Tentaram pressioná-lo também através de suas filhas, com conversas sugestivas das conseqüências de negar o juramento. Fizeram desfilar diante de sua janela na prisão três mártires cartuxos e um brigidino rumo ao cadafalso. Por fim, o bispo John Fisher e o ex-chanceler Thomas More foram decapitados e se tornaram testemunhas da fé no ano 1535.

O cisma – isto é, a separação – da igreja anglicana em relação à Igreja Católica estava claro, mas sem outras diferenças doutrinais. Não era a fé que separava os ingleses dos católicos do continente, mas a política. Após a morte de Henrique VIII, a Inglaterra conheceu reis e rainhas católicos e protestantes, que em geral tentaram impor sua fé, com idas e vindas doutrinais. Carlos II tentou impor ao parlamento uma política de tolerância com os católicos. Seu sucessor, Jaime II, era católico, mas contra ele se insurgiram os lords, que pediram ajuda ao estrangeiro, a Guilherme de Orange, que, conquistando em 1689 o reino inglês, consolidou o protestantismo e o parlamentarismo. Foi a chamada “Revolução Gloriosa”. A política definiu a fé dos ingleses.

Bibliografia

FRÖLICH, Roland. Curso Básico de História da Igreja. São Paulo: Paulus, 1987.

MORE, Thomas. A sós com Deus: escritos da prisão. São Paulo: Quadrante, 2002.

SCHOOL of Law, University of Missouri-Kansas City. The Trial of Sir Thomas More: a collection of images, primary documents, trial reports, maps, and other materials relating to More’s 1535 trial and execution. Disponível em <http://law2.umkc.edu/faculty/projects/ftrials/more/more.html>. Acessado aos 15 de junho de 2014.

VERDETE, Carlos. História da Igreja. Lisboa: Paulus, 2009. v. II.



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