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Cardeal Kurt Koch avalia o Vaticano II

O artigo abaixo, publicado pela agência de notícias católica Zenit, é um interessante contraponto aos que tentam colocar em oposição os Concílios Vaticano II e de Trento (ou mesmo o Vaticano I). Essas pessoas muitas vezes se opõem a toda a tradição sobre a autoridade dos concílios (e, portanto, do papa e dos bispos em comunhão com ele) tentando defender a “tradição” como eles preferem entendê-la. Nos artigos que já publiquei sobre tais concílios, tentei analisar essa questão, mas, ainda que procurasse alguma distinção ao menos na formulação das verdades por eles confirmadas, encontrei somente uma semelhança impressionante.

Veja mais aqui no Caritas in Veritate nos temas Concílio Vaticano II e Concílio de Trento.

Cardeal Kurt Koch avalia o Vaticano II

Precisações favorecem o diálogo com os críticos do concílio

ROMA, segunda-feira, 6 de agosto de 2012 (ZENIT.org) – Para tentar entender a importância e a oportunidade do Concílio Vaticano II, o cardeal Kurt Koch, presidente do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, conversou com a agência Apic-Kipa, em entrevista reproduzida pelo L’Osservatore Romano neste último 3 de agosto.

Sobre as pessoas que afirmam que o concílio foi um erro, o cardeal observa: “A noção de que um concílio também pode incorrer no erro se enraíza em Martinho Lutero. Considerando só isto, os tradicionalistas deveriam se perguntar onde é que eles se posiconam de fato”.

A respeito das críticas de quem contrapõe o Concílio de Trento ao Vaticano II, o presidente do Pontifício Conselho afirma que “o Vaticano II adotou quatro constituições, nove decretos e três declarações. Em termos puramente formais, podemos ver a diferença entre esses três gêneros. Então já surge um problema quando se considera que o Concílio de Trento (1545-1563) só publicou decretos, mas nenhuma constituição”. E complementa: “Ninguém afirmaria que o Concílio de Trento foi de um nível inferior. Portanto, do ponto de vista meramente formal, podemos encontrar diferenças, mas não podemos realmente aceitar diferenças no caráter do conteúdo desses documentos”.

Quanto às críticas em relação ao ecumenismo, o cardeal Koch salienta que “não é um tema secundário, mas central no concílio, como já lembrou João Paulo II. É por isso que hoje ele tem que ser um tema central na Igreja”.

Ainda neste sentido, Koch enfatiza que o decreto conciliar sobre o ecumenismo, a Unitatis Redintegratio, baseia os seus princípios na constituição dogmática sobre a Igreja, a Lumen Gentium. “Paulo VI ressatou firmemente, na época da promulgação deste decreto, que ele interpreta e explica a constituição dogmática sobre a Igreja”. O cardeal reitera também, no contexto ecumênico, que “a declaração conciliar Nossa Aetate, sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs, em especial com o judaísmo, igualmente se fundamenta na constituição dogmática sobre a Igreja”.

Koch termina a entrevista anunciando que, para 2017, aniversário de quinhentos anos da Reforma, o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos está preparando um comunicado conjunto com a Federação Luterana Mundial.

Trad.ZENIT

Respeito pelos presos

A intenção de oração do papa para este mês de agosto é pelo respeito aos presos. Não é um tema simples, pois em nossa sociedade prevalece o espírito de vingança, e a cada crime surge o clamor por penas severas, chegando até a se exigir a pena de morte. Cada vez que alguém se levanta contra a barbárie prevalecente nos presídios brasileiros, diz-se logo que ele “quer transformar presídio em hotel”, ou que “bandido bom é bandido morto”. Não é, porém, essa atitude que Deus quer de nós.

Caim matou Abel, seu irmão. Cometeu um grave pecado. Quando o Senhor proferiu sua pena, Caim exclamou: “A minha culpa é grande demais para obter perdão! Expulsas-me hoje desta terra; obrigado a ocultar-me longe da tua face, terei de andar fugitivo e vagabundo pela terra, e o primeiro a encontrar-me matar-me-á.” Contudo, Deus, que é Deus da vida, assim respondeu: “Não, se alguém matar Caim, será castigado sete vezes mais.” (Gn 4)

Talvez nada mais fosse preciso dizer, mas o Senhor diz, e assim o apóstolo São Paulo nos exorta: “Não vos vingueis uns dos outros, caríssimos, mas deixai agir a ira de Deus, porque está escrito: A mim a vingança; a mim exercer a justiça, diz o Senhor” (Rm 12,19, citando Dt 32,35).

O respeito à pessoa humana

O Concílio Vaticano II, que este ano completa o jubileu de ouro de sua abertura, assim nos diz sobre a dignidade do ser humano em sua constituição pastoral Gaudium et Spes:

27. Descendo às conseqüências práticas e mais urgentes, o Concílio inculca o respeito ao homem; que cada um respeite o próximo como “outro eu”, sem excetuar nenhum, levando em consideração antes de tudo a sua vida e os meios necessários para mantê-la dignamente, a fim de não imitar aquele rico que não teve nenhum cuidado com o pobre Lázaro.

Sobretudo nos nossos tempos, temos a imperiosa obrigação de nos tornarmos próximos de qualquer homem indistintamente; se ele se nos apresenta, devemos servi-lo ativamente, quer seja um velho abandonado por todos, ou um operário estrangeiro injustamente desprezado, ou um exilado, ou uma criança nascida de uma união ilegítima sofrendo imerecidamente por um pecado que não cometeu, seja um faminto que interpela a nossa consciência recordando a voz do Senhor: “Todas as vezes que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos a mim é que fizestes” (Mt 25,40).

Além disso, tudo o que atenta contra a própria vida, como qualquer espécie de homicídios, o genocídio, o aborto, a eutanásia e o próprio suicídio voluntário, tudo o que viola a dignidade humana, como as mutilações, as torturas físicas ou morais e as tentativas de dominação psicológica; tudo o que ofende a dignidade humana, como as condições infra-humanas de vida, os encarceramentos arbitrários, as deportações, a escravidão, a prostituição, o mercado de mulheres e jovens e também as condições degradantes de trabalho, que reduzem os operários a meros instrumentos de lucro, sem respeitar-lhes a personalidade livre e responsável: todas essas práticas e outras semelhantes são efetivamente dignas de censura. Enquanto elas inficionam a civilização humana, desonram mais os que se comportam desta maneira, do que aqueles que padecem tais injúrias. E contradizem sobremaneira a honra do Criador.

Note que “as torturas físicas ou morais e as tentativas de dominação psicológica, […] o encarceramento arbitrário” são expressamente condenadas pelo Concílio, juntamente com todas as práticas semelhantes que atentam contra a dignidade de cada homem ou mulher. Aqueles que estão sujeitos a esses abusos, ainda que culpados de algum crime, são verdadeiras vítimas do que se lhes faz.

Apóstolos, papas, mártires

Lembremos de quantos mártires há entre nós, membros do corpo de Cristo, a Igreja Católica. Todos os apóstolos. Os primeiros papas. Dois séculos de cristãos encarcerados e jogados às feras para a diversão da perversa sociedade romana. Ainda hoje, quantos não perdem a vida em defesa da fé? Muitos desses, se não a grande maioria, passou pelo cárcere antes de enfrentar a morte. Quando São Pedro esteve preso em Jerusalém, não foi ouvindo a oração da Igreja que Deus o libertou? (At 12,1-18) Assim devemos orar por nossos irmãos presos, sejam eles inocentes como Pedro, para que sejam libertados, sejam eles pecadores, para que se convertam.

É certo que esse destino ainda espera muitos homens justos, pois Cristo alerta sua Igreja e a prepara para a perseguição: “eis que vos envio como cordeiro entre lobos” (Lc 10,3). “Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas. Cuidai-vos dos homens. Eles vos levarão aos seus tribunais e sereis açoitados com varas nas suas sinagogas. Sereis por minha causa levados diante dos governadores e dos reis: servireis assim de testemunho para eles e para os pagãos. Quando fordes presos, não vos preocupeis nem pela maneira com que haveis de falar, nem pelo que haveis de dizer: naquele momento vos será inspirado o que haveis de dizer. Porque não sereis vós que falareis, mas é o Espírito de vosso Pai que falará em vós.” (Mt 10,16-20)

Cristo, preso

E qual seria o caminho preparado para o Cordeiro de Deus, se não o do abatedouro? Era preciso que fosse levantado na cruz “para que todo homem que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3,14-15). E isso não aconteceu sem que antes fosse preso e barbaramente torturado.

O Verbo de Deus, que é Deus, encarnado e assim unido à humanidade, “preso, morto e sepultado”, é este o “Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1,1-36; símbolo apostólico; Catecismo da Igreja Católica, 464, 480, 599-623). É tão grande a união de Cristo com a humanidade, que permite a São Paulo dizer (Rm 6,3-11):

Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova. Se fomos feitos o mesmo ser com ele por uma morte semelhante à sua, o seremos igualmente por uma comum ressurreição. Sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que seja reduzido à impotência o corpo (outrora) subjugado ao pecado, e já não sejamos escravos do pecado. (Pois quem morreu, libertado está do pecado)

Ora, se morremos com Cristo, cremos que viveremos também com ele, pois sabemos que Cristo, tendo ressurgido dos mortos, já não morre, nem a morte terá mais domínio sobre ele. Morto, ele o foi uma vez por todas pelo pecado: porém, está vivo, continua vivo para Deus! Portanto, vós também considerai-vos mortos ao pecado, porém vivos para Deus, em Cristo Jesus.

“A um desses meus irmãos mais pequeninos”

É claro que nem todo aquele que está preso é inocente como Jesus. Contudo, o próprio Deus se sujeitou à prisão, ao suplício e à morte para nos libertar do pecado. Com Cristo fomos presos, supliciados, mortos e ressuscitados. Vivemos agora uma vida nova. Contudo, não podemos nos esquecer nem dos inocentes, nem dos criminosos na prisão.

“Estava na prisão e viestes até mim. […] todas as vezes que fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizestes. […] na prisão e não me visitastes […] todas as vezes que deixastes de fazer isso a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer.” (Mt 25,36-45) É esse o critério que será usado em nosso julgamento: por amor a Deus, fizemos o bem para os mais frágeis? Ou então os deixamos desprotegidos? Podemos fazer o bem a esses pequeninos irmãos simplesmente dando-lhes condições dignas para pagar por seus crimes, para se educarem e se recuperarem para a vida em sociedade, e, principalmente, para a conversão. Afinal, que foi que disse Nosso Senhor Jesus Cristo ao ladrão arrependido? “Em verdade te digo: hoje estarás comigo no paraíso”. (Lc 23,43)

Tradição e Escritura

Entre os católicos tradicionalistas (e note bem o “istas”), é comum reclamar que o Concílio Ecumênico Vaticano II teria abandonado a tradição e até mesmo aderido aos “solas” protestantes, especialmente o sola Scriptura – somente a Escritura. Alguns usam como argumento a união Bíblia-tradição expressa na constituição dogmática Dei Verbum. Eles opõem ao ensinamento deuterovaticano a reafirmação da tradição pelo Concílio de Trento. É preciso novamente relembrar a historicidade dele, e, principalmente, o que realmente declarou.

A chamada “contra-reforma”

É comum na historiografia ouvir-se falar da “contra-reforma”, termo ao qual alguns historiadores católicos contrapõem outro, “reforma católica”. Trata-se do movimento da Igreja romana frente aos desafios impostos pelo avanço da reforma protestante no século XVI. O principal acontecimento nesse cenário foi o Concílio de Trento, o qual reafirmou as verdades de fé que os protestantes contestavam – dentre as quais necessariamente deveria constar a tradição como fonte da verdade.

Digo que deveria constar o argumento sobre a tradição, porque os protestantes, para poderem se desvincular da Igreja Católica, precisavam atacar sua autoridade enquanto detentora da tradição evangélica. Como não se poderia contestar a tradicionalidade do ensinamento romano, os novos grupos religiosos contestaram a própria tradição enquanto fonte da verdade, proclamando o “sola Scriptura”. A resposta tridentina (ou seja, do Concílio de Trento) a essa contestação veio já na quarta sessão do primeiro período conciliar, logo após a abertura (primeira sessão), as regras de vida a serem observadas no Concílio (segunda sessão) e a profissão de fé (terceira sessão).

Vejamos tal resposta:

O Sacrossanto, Ecumênico e Geral concílio de Trento, congregado legitimamente no Espírito Santo e presidido pelos três legados da Sé Apostólica, propondo-se sempre por objetivo que exterminados os erros se conserve na Igreja a mesma pureza do Evangelho, que prometido antes na Divina Escritura pelos Profetas, promulgou primeiramente por suas próprias palavras, Jesus Cristo, Filho de Deus e Nosso Senhor, e depois mandou que seus apóstolos a pregassem a toda criatura, como fonte de toda verdade que conduz à nossa salvação, e também é uma regra de costumes, considerando que esta verdade e disciplina estão contidas nos livros escritos e nas traduções não escritas, que recebidas na voz do mesmo Cristo pelos apóstolos ou ainda ensinadas pelos apóstolos, inspirados pelo Espírito Santo, chegaram de mão em mão até nós.

Seguindo o exemplo dos Padres católicos, recebe e venera com igual afeto de piedade e reverência, todos os livros do Velho e do Novo Testamento, pois Deus é o único autor de ambos assim como as mencionadas traduções pertencentes à fé e aos costumes, como as que foram ditadas verbalmente por Jesus Cristo ou pelo Espírito Santo, e conservadas perpetuamente sem interrupção pela Igreja Católica.

Resolveu também unir a este decreto o índice dos Livros Canônicos, para que ninguém possa duvidar quais são aqueles que são reconhecidos por este Sagrado Concílio. […]

Se alguém então não reconhecer como sagrados e canônicos estes livros inteiros, com todas as suas partes, como é de costume desde antigamente na Igreja católica, e se acham na antiga versão latina chamada Vulgata, e os depreciar de pleno conhecimento, e com deliberada vontade as mencionadas traduções, seja excomungado.[…]

Decreta também com a finalidade de conter os ingênuos insolentes, que ninguém, confiando em sua própria sabedoria, se atreva a interpretar a Sagrada Escritura em coisas pertencentes à fé e aos costumes que visam a propagação da doutrina Cristã, violando a Sagrada Escritura para apoiar suas opiniões, contra o sentido que lhe foi dado pela Santa Amada Igreja Católica, à qual é de exclusividade determinar o verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Letras; nem tampouco contra o unânime consentimento dos santos Padres, ainda que em nenhum tempo se venham dar ao conhecimento estas interpretações.

Ou seja, o Concílio de Trento declarou a mesma fonte divina da Bíblia e da tradição católica, guardadas pela Igreja enquanto sucessora dos apóstolos. A tradição e a Escritura, portanto, são fontes ambas do magistério eclesiástico, visto que unidas indissoluvelmente e reveladas divinamente, o que resulta necessariamente que a única fonte do magistério é a divina, dada por dois meios, ditos também fontes: a Bíblia e a tradição.

O Concílio Ecumênico Vaticano II

Vejamos agora o que diz o Vaticano II em uma de suas constituições dogmáticas, a Dei Verbum, sobre a revelação divina (a outra é a Lumen Gentium, sobre a Igreja):

CAPÍTULO II

A TRANSMISSÃO DA REVELAÇÃO DIVINA

Os apóstolos e seus sucessores, transmissores do Evangelho

7. Deus dispôs amorosamente que permanecesse integro e fosse transmitido a todas as gerações tudo quanto tinha revelado para salvação de todos os povos. Por isso, Cristo Senhor, em quem toda a revelação do Deus altíssimo se consuma (cf. II Co 1,20; 3,164,6), mandou aos Apóstolos que pregassem a todos, como fonte de toda a verdade salutar e de toda a disciplina de costumes, o Evangelho prometido antes pelos profetas e por Ele cumprido e promulgado pessoalmente, comunicando-lhes assim os dons divinos. Isto foi realizado com fidelidade, tanto pelos Apóstolos que, na sua pregação oral, exemplos e instituições, transmitiram aquilo que tinham recebido dos lábios, trato e obras de Cristo, e o que tinham aprendido por inspiração do Espírito Santo, como por aqueles Apóstolos e varões apostólicos que, sob a inspiração do mesmo Espírito Santo, escreveram a mensagem da salvação.

Porém, para que o Evangelho fosse perenemente conservado íntegro e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram os Bispos como seus sucessores, «entregando lhes o seu próprio ofício de magistério». Portanto, esta sagrada Tradição e a Sagrada Escritura dos dois Testamentos são como um espelho no qual a Igreja peregrina na terra contempla a Deus, de quem tudo recebe, até ser conduzida a vê-lo face a face tal qual Ele é (cf. I Jo 3,2).

A sagrada Tradição

8. […] Afirmações dos santos Padres testemunham a presença vivificadora desta Tradição, cujas riquezas entram na prática e na vida da Igreja crente e orante. Mediante a mesma Tradição, conhece a Igreja o cânon inteiro dos livros sagrados, e a própria Sagrada Escritura entende-se nela mais profundamente e torna-se incessantemente operante; e assim, Deus, que outrora falou, dialoga sem interrupção com a esposa do seu amado Filho; e o Espírito Santo – por quem ressoa a voz do Evangelho na Igreja e, pela Igreja, no mundo – introduz os crentes na verdade plena e faz com que a palavra de Cristo neles habite em toda a sua riqueza (cf. Col 3,16).

Relação entre a sagrada Tradição e a Sagrada Escritura

9. A sagrada Tradição, portanto, e a Sagrada Escritura estão intimamente unidas e compenetradas entre si. Com efeito, derivando ambas da mesma fonte divina, fazem como que uma coisa só e tendem ao mesmo fim. A Sagrada Escritura é a palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do Espírito Santo; a sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, para que eles, com a luz do Espírito de verdade, a conservem, a exponham e a difundam fielmente na sua pregação; donde resulta assim que a Igreja não tira só da Sagrada Escritura a sua certeza a respeito de todas as coisas reveladas. Por isso, ambas devem ser recebidas e veneradas com igual espírito de piedade e reverência.

Relação de uma e outra com a Igreja e com o Magistério eclesiástico

10. A sagrada Tradição e a Sagrada Escritura constituem um só depósito sagrado da palavra de Deus, confiado à Igreja; aderindo a este, todo o Povo santo persevera unido aos seus pastores na doutrina dos Apóstolos e na comunhão, na fracção do pão e na oração (cf. At 2,42), de tal modo que, na conservação, atuação e profissão da fé transmitida, haja uma especial concordância dos pastores e dos fiéis.

Porém, o encargo de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo. Este magistério não está acima da palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido, enquanto, por mandato divino e com a assistência do Espírito Santo, a ouve piamente, a guarda religiosamente e a expõe fielmente, haurindo deste depósito único da fé tudo quanto propõe à fé como divinamente revelado.

É claro, portanto, que a sagrada Tradição, a sagrada Escritura e o magistério da Igreja, segundo o sapientíssimo desígnio de Deus, de tal maneira se unem e se associam que um sem os outros não se mantém, e todos juntos, cada um a seu modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação das almas.

Nessa constituição dogmática do Concílio Vaticano II encontramos, portanto, plena continuidade do Decreto sobre as Escrituras Canônicas do Concílio de Trento. Não é verdadeiro o argumento que procura abalar a autoridade do Vaticano II sob pretexto de uma suposta ruptura com o concílio tridentino. O que o concílio mais recente fez foi, na verdade, atualizar a apresentação dessa doutrina, facilitando a atuação pastoral da Igreja Católica num mundo profundamente modificado – e a ação pastoral, que alguns questionam, nada mais é que fazer retornar para o caminho certo as ovelhas desviadas (Lc 15,3-7) e guiar em segurança todo o rebanho para seu destino, os prados celestiais, a exemplo e em nome de Nosso Bom Pastor Jesus Cristo (Jo 14).

A sacramentalização do rito

É consabido que o Concílio Ecumênico Vaticano II introduziu reformas na liturgia católica e também no modo de agir com as igrejas separadas. Alguns setores tradicionalistas, em que pese, digamos, o grande risco de cisma, não aceitaram as decisões conciliares e resolveram promover uma guerra contra toda e qualquer renovação na Igreja, sob o pretexto de defendê-la da “heresia modernista” e da “apostasia silenciosa”. Incorrem em diversas contradições, contudo.

É verdade que os riscos modernistas e silenciosamente apóstatas foram salientados por papas passados, e muito convenientemente. Contudo, quando grupos como a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) dizem defender a Igreja da própria Igreja, estão eles combatendo uma apostasia, ou criando eles mesmos uma apostasia? Estão combatendo um modernismo pernicioso, ou cultivando um tradicionalismo pernicioso?

A FSSPX e a liturgia

Em que pese a FSSPX e os tradicionalistas em geral falarem também de outros assuntos, a questão principal é sempre a liturgia. Veja-se a apresentação da “tradução informal para o português” de Acuso o Concílio, publicada pela FSSPX no Brasil:

Dom Lefebvre atraiu a atenção do mundo por sua oposição às mudanças que se faziam na Igreja em nome do Concílio Vaticano II. Textos ambíguos, aprovados pela possibilidade de uma interpretação ortodoxa, eram invocados depois para justificar uma interpretação heterodoxa. As reformas na liturgia tinham implicâncias teológicas capazes de adulterar a fé. Logo, não eram lícitas.

Ressalte-se que Constituição Sacrosanctum Concilium, sobre a reforma da liturgia, foi aprovada com 2.147 votos favoráveis e apenas 4 contrários. Ou seja, foi certamente a expressão da vontade dos pastores da Igreja Católica, não por uma estreita maioria, mas por um consenso do qual discordaram quase que apenas os que se separaram da Sé romana.

Os que seguem tal fraternidade afirmam, em primeiro lugar, que se trataria de uma fórmula com 2.000 anos de existência. É mentira. O rito aprovado por pelo papa São Pio V foi, justamente, aprovado por este papa, em conformidade com a doutrina sobre o Sacrifício [Eucarístico] da Missa, do Concílio de Trento, de 17 de setembro de 1562. A promulgação do rito data de 8 anos depois, 1570. Portanto, é um rito mais ou menos fixado há 442 anos e que não impediu a celebração de diversos outros ritos, como, por exemplo, o ucraíno e o ambrosiano. Trata-se de uma fixação do rito romano e de sua extensão por toda a parte onde não se usasse tradicionalmente um rito diferente.

Historicidade do rito romano tradicional

Qual a finalidade de se fixar uma determinada fórmula para celebração da Missa, e ainda obrigar que seja dita em latim, em vez da língua local? Simplesmente porque, no século XVI, o uso do vernáculo se misturava aos ímpetos cismáticos dos que viam, na autoridade do papa, uma espécie de ditadura romana. Isso levou a cismas, heresias e até mesmo guerras, como a guerra camponesa na Alemanha nos anos 1520 (não por acaso, logo no início da reforma luterana). A língua litúrgica e a autoridade dos príncipes se misturaram e resultaram em que, a meados daquele século, os príncipes do Sacro Império Romano-Germânico pudessem impor a profissão de fé de Augsburgo (luterana) ou a romana. Mesmo em tais condições, o Concílio de Trento estabeleceu:

Ainda que a Missa inclua muita instrução para o povo fiel, sem dúvida não pareceu conveniente aos Padres que ela seja celebrada em todas as partes em língua vulgar. Por este motivo, ordena o Santo Concílio aos Pastores e a todos que tenham cura de almas, que conservando em todas as partes o ritual antigo de cada igreja, aprovado por esta Santa Igreja romana, Mãe e Mestra de todas as igrejas, com a finalidade de que as ovelhas de Cristo não padeçam de fome, ou as crianças peçam pão e não haja quem o reparta, exponham freqüentemente por si ou por outros, algum ponto dos que se leêm na Missa, no tempo que esta se celebra entre os demais, declarem especialmente nos domingos e dias de festa, algum mistério deste santíssimo sacrifício.

Ou seja, decidiu que ela não seja “celebrada em todas as partes em língua vulgar”, mas que se exponha freqüentemente (em língua vulgar) “algum ponto dos que se lêem na Missa”. Mais adiante, no mesmo documento sobre a doutrina da Missa, condenam-se apenas os que defendem “que a Missa deve ser dita sempre em língua vulgar” (cânon IX).

Ademais, o rito sofreu alterações posteriores, incluindo a oração a São Miguel Arcanjo que, por determinação do Papa Leão XIII passou a ser rezada ao final da Missa a partir de 1886 (há 126 anos).

Missa e signos

O ritual da Missa é essencialmente a significação do sacrifício de Cristo. Ou seja, o sacrifício eucarístico, instituído diretamente por Deus, é atualizado através de sinais visíveis. Esses sinais, por sua vez, derivam diretamente das palavras proferidas por Jesus na última ceia, em que instituiu sua memória, a atualização do sacrifício, e o sacerdócio dos apóstolos. Tais palavras foram provavelmente ditas em aramaico, língua corrente na Palestina daquela época. Foram escritas no evangelho em grego. Daí, foram vertidas para o latim. Não perderam, contudo, seu significado, quer dizer, transmitem ainda hoje o sinal da morte e da ressurreição do Deus Vivo. Instituem verdadeiramente a Eucaristia, o sacrifício divino em favor dos pecadores, não pelo poder das palavras, mas pelo poder sacerdotal que Deus confere aos presbíteros e pastores da Igreja universal. Para que os sinais do verdadeiro e real sacrifício presente na missa sejam recebidos pelos fiéis, é necessário que estes compreendam o que é feito, como diz a constituição conciliar mais recente:

11. Para assegurar esta eficácia plena, é necessário, porém, que os fiéis celebrem a Liturgia com rectidão de espírito, unam a sua mente às palavras que pronunciam, cooperem com a graça de Deus, não aconteça de a receberem em vão. Por conseguinte, devem os pastores de almas vigiar por que não só se observem, na acção litúrgica, as leis que regulam a celebração válida e lícita, mas também que os fiéis participem nela consciente, activa e frutuosamente.

Portanto, para que não haja um involuntário sacrilégio, é necessário que o fiel participe do sacrifício no sentido de compreendê-lo e apreendê-lo. Para que o uso da língua vernácula, “de grande utilidade para os fiéis”, não excedesse sua função, a mesma constituição determina que o texto traduzido deva ser aprovado pelo Vaticano (n.º 36).

O Concílio Vaticano II e os ritos já estabelecidos

Ademais, o mais recente concílio não teve propósito de alterar a fé, e sim de reafirmá-la e atualizar sua expressão. No tocante aos ritos, assim prescreve:

4. O sagrado Concílio, guarda fiel da tradição, declara que a santa mãe Igreja considera iguais em direito e honra todos os ritos legitimamente reconhecidos, quer que se mantenham e sejam por todos os meios promovidos, e deseja que, onde for necessário, sejam prudente e integralmente revistos no espírito da sã tradição e lhes seja dado novo vigor, de acordo com as circunstâncias e as necessidades do nosso tempo.

Deixemos ao próprio concílio falar a respeito de seus objetivos pastorais na reforma da liturgia:

1. O sagrado Concílio propõe-se fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja. Julga, por isso, dever também interessar-se de modo particular pela reforma e incremento da Liturgia.

Separar-se da fé católica dizendo defender a tradição contra o “modernismo” do Concílio Ecumênico Vaticano II é, portanto, tentar transformar a forma litúrgica (o rito) em um falso sacramento, como se tivéssemos na tradição uma forma ritual instituída diretamente por Deus, e não sinais visíveis do real sacramento eucarístico. E querer retirar dos sinais visíveis a possibilidade de ter receptores entre os fiéis leigos é querer retirar destes a possibilidade de acederem à realidade do sacrifício do Deus Vivo presente na Missa.

Querem continuar a celebrar conforme o missal antigo? Não há problema, ele continua sendo válido, pois obedece plenamente ao que é imutável. É uma das “duas formas da única lex orandi da Igreja de rito latino.” Porém, não podemos sacralizar o que está sujeito à mudança. A língua latina evoluiu. As palavras de Cristo foram vertidas para essa língua. A Missa evoluiu, mesmo no rito de S. Pio V. Os sinais continuaram lá. Agora temos uma outra forma, preferível porque atinge mais pessoas e é capaz de reunir mais fiéis em torno do sagrado sacrifício. Não há uma oposição que se possa fomentar, pois também nessa nova forma os sinais continuam. Quem quer que a Missa perca seu sabor para o povo? “O sal é uma coisa boa, mas se ele perder o seu sabor, com que o recuperará? Não servirá nem para a terra nem para adubo, mas lançar-se-á fora. O que tem ouvidos para ouvir, ouça!” (Lc 14,34-35)